Definitivamente não há, na vida de uma pessoa, momento mais constrangedor do que o “Parabéns pra você”. Você pode ser pego com as calças arriadas, no banheiro do trabalho, em uma “reunião com a Celite” e nem assim vai se sentir tão mal quanto na hora de assoprar as velhinhas no seu aniversário.
A começar porque, na hora do mico, você sequer sabe o que fazer com as mãos. Bater palmas ou não bater? Cantar ou não cantar? Dançar? Tirar a roupa? Gritar que seu corpo está tomado de dinamites? Eu penso em fazer todas essas todos os anos, mas de nada adiantaria. Você está diante de um par de velas (isso depende do modelo da mãe. Se sua mãe for italiana, 150 velas rosas. Se for judia, uma vela de sete dias que é para render ao longo da vida e ainda acender no Yom Kippur. Se for como a minha, um par de velhinhas coloridas e articuladas, com olhinhos que se mexem conforme a intensidade das palmas), de um bolo de chocolate e as pessoas esperam que você faça alguma coisa, principalmente para aquela merda toda acabar logo e ocorrer o ataque à bandeja de brigadeiro.
O ruim de fazer um mês de aniversário é que esse momento constrangedor pode ocorrer diversas vezes. Esse ano, foram quatro. Acompanhe agora os diferentes tipos de parabéns para você e as reações da aniversariante conforme o tempo e o espaço:
1. O primeiro foi no dia 8 de outubro, a tarde, aqui no trabalho. Disfarçadamente, todos saíram da minha sala e me deixaram sozinha. De repente, uma amiga do cadastro subiu pedindo a minha ajuda, tão afoita que eu podia jurar que a ONG2 pegava fogo. Claro que me liguei na hora que se tratava do primeiro momento de mico do ano e me preparei psicologicamente enquanto descia as escadas. No espaço livre da casa, muitos amigos rodeavam dois bolos de chocolate e ouvi as palmas assim que coloquei o nariz para fora da porta. Quando eles pediram discurso, eu disse que eles eram as melhores pessoas do mundo e que a ONG2 era o melhor lugar para trabalhar.
Primeiro pedaço de bolo: deixei em cima da mesa e ofereci, singelamente, a todos os funcionários maravilhosos desse lugar fantástico.
2. O segundo já foi aqui descrito e ocorreu também no dia 8, no bar sujo do lado da faculdade, quando comemorávamos com uma partidinha de sinuca e um copo de cerveja os meus anos novos. Patrícia, pastora evangélica fervorosa que jamais havia entrado em um bar e costuma falar pouco nas aulas, entrou gritando no boteco mais fedido do Brasil, seguida por seu rebanho de ovelhinhas castas e rodearam a mesa de sinuca. Tentei me esconder, mas era tarde demais. Eu já havia sido identificada por todos os bêbados do lugar, que se candidataram ao casamento na hora do “Com quem será?” Como não restava nada a fazer e era a minha vez de jogar, matei a bola e fui embora.
Primeiro pedaço de bolo: não teve, mas eu atiraria na cara da Pati, tranqüilamente.
3. Terceiro pior momento do ano foi na minha casa, no dia 9, quando comemorei com a família. Assim que apagaram a luz, Dona Maricota gritou, no auge dos seus 85 anos:
- ACENDE ESSA LUZ QUE EU ODEIO ESCURO.
- Mas é hora dos parabéns, Dona Maricota.
- SACO!
Primeiro pedaço de bolo: eu comi. A família perdoa.
4. Quarto e último. Para encerrar o aniversário. Aconteceu sexta passada, na sinuca. Bia, Claudinho e Júlio sumiram e eu os profanei para todos que estavam no lugar. Como meus amigos podiam ter me abandonado no dia do meu aniversário, por tanto tempo? Quem faria sala para os outros convidados enquanto eu me divertia? Duas horas depois, eis que surge o trio, portando chapeuzinhos, uma coroa de princesinha, cornetinhas (sim, eles estavam tocando) e um pão italiano recheado de mortadela com uma vela acesa. Palmas, parabéns e “Discurso! Discurso!”:
- Ah, odeio vocês! Vão se foder!
- AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE.
Primeiro pedaço do bolo de mortadela: pelo amor de deus... não sei. Mas a pessoa deve estar conversando com ele até agora.
Esse último post encerra o meu mês de aniversário, com os agradecimentos devidos a todos que me deram carinho de alguma forma. Seja com telefonema de LA (saudades, Zezu), cd dos Pretenders (chegou, Lan e Arthur. Valeu!!!) ou sanduíche de mortadela (amo vocês, amigos!).
NOTA: Depois do sanduíche, rolou um bolo ruim pra caramba. Como o Eloi desconhece o ditado de “o que vale é a intenção” e levou o bolo para casa, São Francisco Califórnia me permita que eu não o encontre pelos corredores da faculdade hoje.