NOTA: Primeira meia hora livre, mas não tão livre, do dia e cá estou eu para contar a minha saga oriental do feriado. O texto é gigantesco, mas eu sei que a Maria vai ler ele todinho.
Maria nos convidou (eu, Luquinhas e cabeça) para um dia típico japonês no interior de São Paulo. Aprenderíamos a lutar Kung Fu, a fórmula da cola (mais chamada de Gohan pelos japoneses e arroz-unidos-venceremos pelos brasileiros), origami e a língua típica do Promocenter.
- Para chegar às 11h30 na minha casa, vocês tem de sair às 9h.
Então topamos o desafio porque devia fazer parte do nosso treinamento Pai Mei. Rumamos à Diadema, com nossas mochilas, nosso Manual do Escoteiro Mirim, cantil, canivete suíço com cortador de unha e uma fita de vídeo com os melhores programas do seriado Profissão Perigo. Lucas levou sua maletinha de primeiros socorros com todos os instrumentos de plástico necessários para uma cirurgia, caso algum bonequinho da Lego se ferisse.
Ônibus até a Barra Funda / Metrô até a Sé / Outro até o Jabaquara / Troleibus / caminhada até a casa da Maria. Esse foi o trajeto que percorremos com filhotinho a tira-colo.
- Quando passar o Aché Ilê Oba...
- Que porra é essa, Maria?
- É um terreiro. Quando passar, já é Diadema. Aí é seguir dentro do troleibus e descer depois do Extra.
- Tem Extra??????????????
Maria nos esperava no Terminal Piraporinha, mas nem precisava. Não existe nenhum outro japonês na cidade e para achar a casa dela era só ter perguntado na banca. A japa trajava vestimentas típicas: camiseta laranja, chinelos havaianas e calça de moleton.
Nosso dia na Maria foi dividido em
quatro sete partes:
1.) Conhecendo a família e a casa
2.) Interpretando o dialeto nipo-brasileiro
3.) Aprendendo a cozinhar
4.) Lutando no quintal da Maria
5.) Preparando um bolo floresta negra
6.) Envergonhando a criança nos parabéns
7.) A saga do Gol 1000
Então, paciência, caros leitores. Os sete capítulos vem aí:
1.) Conhecendo a família e a casa
Quando a gente conhece a casa da Maria, entende um pouco mais dessa mulher. Principalmente porque ela funciona mais ou menos como a casa. Atrás daquela carcaça mal humorada e dos braços fortes, existe uma das melhores pessoas que fazem parte da minha vida. E por trás daqueles portões enferrujados e da parede suja de limo, uma casa repleta de tradições japonesas de japoneses nada tradicionais.
A mãe da Maria, vinda do Japão, usava uma camiseta “Eu amo Diadema” ou algo do tipo. Ri o tempo todo das nossas besteiras. Até quando a Maria contou que uma das minhas frases preferidas diz respeito aos japoneses e o atraso a evolução do mundo. Diz, pessoalmente, palavras como “ceruraru”, mas o português é muito inteligível. Bem diferente do meu japonês. Simpatia em pessoa.
O pai da Maria, vindo do Japão, chegou da rua e disse em japonês que foi comprar terra e não achou. O saco de terra na mão dele era roubado. Adora comida baiana, vejam vocês. Gosta de feijoada, dobradinha e mocotó. Tudo o que eu odeio. Ele é mais brasileiro do que eu e eu mais japonesa do que ele. Exceto por ele, no meio da história, incluir frases nipônicas e me deixar com cara de “ué”. O pai da Maria é um Chevy Chase do Japão, daqueles que sobe na calha e faz a família toda ficar apreensiva ao imaginar que o teto vai despencar e ele vai cair em cima do dvd com o filme do Bruce Lee.
A irmã da Maria também merece a minha nota 10. Tem uma personalidade muito parecida com a da irmã, porque quando não gosta de você, deixa bem claro e quando gosta, também. E ela gostou da gente porque até topou assistir Kill Bill 2 conosco. Para se diferenciar da Maria, a Ne tem uma concentração japonesa típica. E a Maria esqueceu a dela embaixo do tatame.
Sobre a Maria... bah, vocês estão carecas de saber.
Impressões do Lucas: “A casa da Maria é muuuuuuuuuito bonita” e “nossa, que bagunçado aqui. Sua casa é cheia de bagulho”. Ambas foram ditas para a mãe da Maria.
2.) Interpretando o dialeto nipo-brasileiro
Nessa o Lucas se deu bem. Entendia até quando o pai da Maria falava japonês/português/japonês. Ou não entendia e já aprendeu a mentir.
3.) Aprendendo a cozinhar
Gyoza, missoshiro, pastel de broto de bambu, salada, gohan. Muito melhor do que no restaurante porque tinha aquele temperinho caseiro. Ou a falta de temperinho caseiro, porque japonês não é muito fã de tempero. Amém que o pai da Maria gosta de comida baiana. No Gyoza tinha alho e no shoyo tinha pimenta. Limão em cima da mesa. Enfim, tudo aquilo que você sempre sonhou em um rodízio, mas não existe. E ainda por cima de graça.
Aprendemos a fazer o Gyoza e Júlio demonstrou toda a sua falta de habilidade. Nem o Gerson Brenner fecharia um pastelzinho tão errado quanto ele. Nos sentamos ao redor da mesa, no chão, em cima do tatame, sem os sapatos. Era hora de provar nossa sabedoria nos palitos. Eu suava frio porque só não espirro Shoyo em quem está a mais de dois metros de mim na praça de alimentação da faculdade. Dei um show. Em compensação, cinco minutos depois de começarmos a comer, a mãe da Maria perguntou se Júlio queria garfo e faca.
4.) Lutando no quintal da Maria
Esse capítulo poderia se chamar Surrando o Júlio no quintal da Maria, porque ele apanhou feio. Nossa amiga japa faz Kendô há mais de 15 anos. A família toda faz Kendô. Vestimos as armaduras, ficamos parecendo a Whoopy Goldberg do mal, em Mudança de Hábito, pegamos as espadas de bambu e eu descontei toda a frustração de não estar perto do Zezu no Júlio. Depois largamos as espadas, tiramos a proteção dos rostos e com as luvas de Kendô brincamos de boxe. Deve ter um dente do Júlio caído no chão da Maria até agora.
Destaque para o pai da Maria que, enquanto o Júlio era espancado, gritava: “viorenta, né?”, “Que bruta”.
No
blog do Júlio tem uma descrição detalhada de como foi a luta.
5.) Preparando um bolo floresta negra
No meio de Xôgum e Arte da Guerra, o livro “maravilhosa cozinha da Ofélia” veio salvar a vida de Maria. Ela inventou de fazer um bolo floresta negra e só depois de tentar descobriu que apenas duas pessoas no mundo conseguem fazer o maldito bolo. E nós duas não somos essas pessoas. Passamos longe. O gosto saiu bom. A aparência indescritível. E a cozinha da Maria foi invadida por formigas após o chantilly que eu fiz questão de fazer na batedeira.
6.) Envergonhando a criança nos parabéns
Lucas não esperava que aquela gororoba negra fosse um bolo de sua primeira-festa-surpresa-japonesa. Eu também não esperava. E fiquei muito emocionada ao ver a família toda da Maria ao redor da mesa cantando um “Parabéns para você” cheio de R para o meu filho.
7.) A Saga do Gol 1000
Na hora de ir embora, o senhor pai da Maria nos levou até o Jabaquara em seu golzinho 1000 ano 85. Emocionante porque o carro não chega a 70 km/h e o senhor pai da Maria estava sem documentos. A carteira venceu no ano de 1945, quando o mesmo largou os aviões kamikazes e veio para o Brasil abrir uma loja de eletrônicos. Ele contou no caminho. Ou o cheiro de gasolina dentro do carro me fez imaginar tudo isso.
Chegamos em casa quase 19h. Esbodegados pelo trajeto, empanturrados pela boa comida, machucado (no singular porque o Júlio só que apanhou) e ensopados pelo dilúvio que caía aqui na capital. Valeu a pena por ter sido um dos passeios mais divertidos do ano. E queria agradecer publicamente à Maria e sua família pela hospitalidade brasileira e sabedoria japonesa. A amizade, que já era grande, sai fortalecida. E a vontade de aprender a fazer Temaki também.