Cinco páginas de Word para quem não tem o que fazer
Passar o reveillon em Vinhedo* com a família foi muito bom.
* Vinhedo é uma cidadela com cerca de 17 habitantes e duas padarias, 25 supermercados, toda gramada e arborizada.
Foi praticamente uma semana de sol, família e pernilongos para me despedir de 2004, um ano de merda na minha vida. Claro que ele me deu presentes para lá de especiais (como amigos internéticos – Kritz, Marcelo, Jojô, Pedro, Juninho, Alfinete, Max, Dionea, Miltinho, Gian e muitos outros, um emprego legal na ONG2, mesa com gavetas, reencontros com pessoas maravilhosas – entre elas um rapaz de nome pomposo e dias contados para me fazer feliz), mas eu queria que 2004 acabasse logo.
E acabou em dias repletos de cuba libre, baconzitos, cheetos e todos esses podritos que fazem a gente mais feliz (isso explica alguns quilinhos a mais e uma dieta em 2005).
Dia 27
O primeiro dia em Vinhedo não teve nada demais, exceto uma crise de abstinência tremenda de msn, e-mails e os malditos scraps do orkut. Mas sonhei que estava baixando os e-mails e fiquei mais tranqüila pelo resto do feriado. Sonhei a tarde, claro, porque a noite eu dividiria o quarto com minha mãe e com o Lucas e está escrito no Manual do Escoteiro Mirim:
“Se sua mãe tiver mais de quarenta anos e você for dividir o quarto com ela, não esqueça do tampão de ouvido, amiguinho. Ela roncará pra caralho.”
E o Manual do Escoteiro Mirim, ao contrário de minha memória, nunca falha. Lá estava eu, a rolar pela cama durante a madrugada e a desenvolver planos mirabolantes para as próximas noites em que eu dormiria com minha mãe. Não consegui planejar absolutamente nada porque o barulho que saía daquelas narinas, boca, orelhas e todos os poros atrapalhava até pensamento. Só pensei em três coisas:
- Coitado do meu pai.
- Quando eu casar, quero quarto separado.
- Como, caraleos, o Lucas consegue dormir?
Então percebi que meu filho estava com os olhos estatelados, provavelmente pensando como caraleos eu conseguia dormir.
Dia 28
- Bom dia.
- Udgfjvdhd.
- O que foi, Lelê?
- Não preguei o olho a noite toda, tio. Tinha uma leão no meu quarto.
- Então isso é hereditário. Porque tinha um leão no meu também.
- Puta merda, a titia também ronca?
- Para chamar aquilo de ronco, precisa afinar muito.
- Se for hereditário, to fodida. Aliás, meu marido está fodido.
- Eu já me acostumei com isso.
- Eu não. Pior é que não consigo pensar em nada para as próximas noites. E se a gente isolasse as duas no quartinho dos fundos? A casa do caseiro está vazia?
- Lelê... isso ia parecer grosseiro.
- Merda.
No dia 28, minha tia resolveu fazer uma lentilhada. Adoro lentilhas e pertenço a seita dos que defendem a substituição do feijão pelos grãos na comida diária. E a lentilha, como toda e qualquer lentilhada – do boteco da esquina a do Fasano, passando pelas minhas – estava uma delícia.
- Lelê e Nando, vocês lavam a louça do almoço.
Ficou provado que minha mãe e tia ouviram a conversa com meu tio pela manhã e resolveram se vingar. Porque herdar louça de lentilhada só pode ser vingança. E lá estávamos, eu e meu primo, perdendo um dia de sol e calor, a esfregar pratos da família toda e potinhos de sagu (teve sobremesa), talheres, copos e todos os produtos que a Camicado vende, mas com muito menos glamour e mais restos de comida. Até que, diante de mim, uma única panela. A que estava TODA a lentilhada, feita para duzentas pessoas (mesmo com sete presentes, porque minha tia é exagerada e cozinha para todos os desabrigados pela Tsunami na Ásia).
- Nando, o que você acha de enterrar essa panela no quintal e comprar outra para a sua mãe? Assim eu não tenho que lavar e nem você tem que secar.
- Pelo tamanho da panela, ela pagou uns duzentos reais.
- Uns duzentos mil.
- Merda.
E decidi lavar a panela por partes, que chamei de Américas, Ásia, Europa e África. Legal mesmo foi ver meu primo de 1m50 desequilibrando ao enxugar tal utensílio doméstico. E eu consegui pensar em duas coisas:
- Adeus sonho da família grande.
- Eu me salvaria da Tsunami dentro daquela panela.
De tarde, tive uma idéia brilhante:
- Nando, me leva no mercado.
Enchemos o carrinho de Rum Montilla.
- Se eu encher a cara antes de dormir, nem vou ouvir os roncos da minha mãe.
Brilhante. E deu certo. Só o que não dá certo é Cuba Libre com Pepsi Twist. Então, conselho de amiga, se você divide o quarto com a sua mãe e ela tem mais de quarenta anos, larga a mão de ser comunista e vai comprar coca-cola no supermercado.
Dia 29
Sabe o que teve no almoço? Lentilha.
Antes de dormir, o Lucas chamou pela madrinha dele. Enquanto conversavam, sentados na cama sob a meia-luz do abajur, Lucas mostrou-se irritado. Virou-se para a outra cama e disse:
- Cala a boca. Fala mais baixo. Ta atapaiando.
Mas a outra cama estava vazia. No quarto, só a minha prima e o Lucas. Então, ele continuou a conversar normalmente com a minha prima. Até que ficou puto da vida novamente.
- Peia aí, Dadá. *
* - Espera aí, Dadá.
Se levantou e foi até a outra cama, aparentemente vazia.
- XIIIIIIIIIIIIIIIU, fica quieto que você tá atapaiando.
Voltou, se cobriu e disse para a minha prima:
- Não é nada não, Dadá. Era só um menininho.
E ele não entendeu nada quando minha prima saiu correndo e só a viu no dia seguinte.
Dia 30
No almoço, o resto da lentilhada.
- É pecado jogar fora.
Por isso, não gosto do discurso cristão. Muitas cubas depois, eu e meus primos resolvemos procurar algo para fazer naquela cidade. Vinhedo é mundialmente conhecida como uma das melhores noites do interior de São Paulo.
Ficamos 20 minutos rodando e nada.
- Onde estão as pessoas de Vinhedo?
- Dormindo.
- Faz sentido...
Decidimos ir à Cachaçaria Água Doce, uma rede de bares espalhada por todo o País, fazendo a vida dos brasileiros muito melhor. Velhinhos e velhinhas cantavam Trem das Onze com o músico do local, provavelmente primo distante do tecladista Dr. Eduardo, crianças corriam ao redor das mesas, comadres trocavam receitas para a ceia de ano novo, compadres discutiam sobre as novas contratações do Vinhedo Futebol Clube, os casais trocavam juras de amor cafonas e famílias inteiras se amontoavam enquanto bebericavam cachaças com nomes esdrúxulos como Na Xoxota e Na Bunda. A diversão ficou por conta dos pedidos, naquele ambiente cristão:
- Garçom, me vê Na Xoxota – dizia a mãe de família.
- Eu quero Na Bunda – completava o fazendeiro machão, criador de gado na região.
E eu só conseguia pensar em uma só coisa:
- Vou ter q pagar couvert artístico. Merda.
Dia 31
- Tia, cadê a lentilha?
- Acabou.
- COMO ASSIM “ACABOU”? Hoje é dia de comer, esqueceu??????? Dá sorte.
- Mas acabou.
- Merda.
Então nos contentamos com File Mignon e todas aquelas coisas que a gente come no Natal. Perto da meia noite, o Scotch, cachorro beagle do meu primo, ficou desesperado, latindo pela casa e cheirando o rodapé da porta como se algo tivesse lá fora. Nos lembramos que a chácara não é murada e é absurdamente fácil entrar no lugar, matar a família, roubar todos os móveis infestados de cupim e a Telefunken centenária da sala.
- Não vamos ver os fogos lá da piscina?
- E se tiver alguém lá fora?
- Nós vamos perder o reveillon por causa de maníacos, assaltantes e matadores de aluguel?
Perdemos alguns minutos de 2005, até meu tio verificar que não era a Juliette Lewis e o Edward Norton carregando duas dozes, mas cadelinhas prenhas. Vimos a fantástica queima de fogos da Cidade de Vinhedo, que durou cerca de dois minutos. Entramos e fomos ver o resto pela televisão.
- Olha lá, Lucas, que beleza. Veja os fogos da praia de Copacabana.
Ver a “Festa da Virada” na televisão é legal porque a mulherada encalhada aparece na praia de Copacabana, usando duas, três, quatro calcinhas vermelhas, uma por cima da outra, para arrumar um marido no ano seguinte. A Glória Kalil podia dizer na Ana Maria Braga que calcinha vermelha aparece sob a roupa branca. E que se pular as sete ondinhas no mar e molhar a roupa branca, ela fica transparente, mostrando o seu desespero para todo o Brasil. Eu, por exemplo, uso um jeans.
Dia 1
No primeiro dia de 2005, meu primo resolveu abrir o Almanaque do Pensamento, livrinho que ele compra todos os anos e que traz informações muito úteis, como o seu horóscopo dos 365 dias do ano e as melhores épocas para plantar cenoura, milho e abobrinha. Mas, movida por uma curiosidade mórbida, pedi para que lesse o que dizia o meu horóscopo chinês. E ainda bem que eu não acredito em chineses, porque senão 2005 seria o pior ano de toda a minha vida. Basicamente ele dizia que eu passaria por dificuldades financeiras, amorosas, religiosas, profissionais e pessoais e que teria problemas de saúde. Me aconselhou a meditar e a refletir sobre todos os acontecimentos ruins do próximo ano para que cada um deles virasse uma lição de vida. E do jeito que as coisas estavam escritas ali, eu me tornaria uma monja tibetana.
Meu primo gostou porque o horóscopo dele dizia que ele seria o cara mais feliz do mundo: conseguiria uma mulher, sucesso na carreira, muito dinheiro, imóveis, viagens, enfim, estava escrito que todas aquelas coisas que desejaram para ele no Natal realmente se realizariam. Provavelmente, ele é o único que compra o Almanaque do Pensamento e resolveram retribuir a gentileza. Ou isso tudo vai mesmo acontecer se ele virar um agricultor e aprender com o livro a plantar cenoura, milho e abobrinha nas épocas certas.
Dia 2
Último dia: arrumar as malas, esvaziar as bóias, contar quantos kilos eu engordei e fechar a mesa da sinuca.
- Nando, põe as bolas nessa caixinha.
- Ãhm?????
E quando ele entendeu que era para guardar as bolas de sinuca que estavam na caçapa na “Caixa de Bolas de Sinuca”, uma perereca pulou na mão dele. Então ele saiu correndo e gritando:
- Peguei na perereca, peguei na perereca!!!!!!!!
Até me pedir gentilmente:
- Lelê, põe a perereca pra fora?
- Ãhm?????
Claro que, depois de passeios cristãos e de dias de ensinamento religioso e reflexão, eu jamais colocaria a perereca pra fora e ela deve estar próxima a mesa de sinuca até agora.
Juntei minhas tralhas e simbora pra Sampa, para dormir na minha caminha, sem menininhos, pernilongos e no mais completo silêncio. Saudades dos dias de sol em 2004, das cubas libres, dos jogos de baralho e, no fundo do peito, uma saudadinha daquela lentilhada. Feliz 2005 para todos.
NOTA: Obrigada a todos que me mandaram mensagens e que me ligaram no último dia do ano (Júlio, Maria, Max, Marcelo, Gabi e Zezu). Obrigada também aos que pensaram em me ligar e não conseguiram, por qualquer motivo, igual a Kritz. Como disse a Gabi: “to ligando na virada para dar sorte. Dizem que o que a gente faz no último dia do ano, fazemos o ano seguinte inteiro.”
Posted by subversiva at 03:36 PM | 17 Comentário (s)
