Chegamos em Beagá com uma baita chuva. Depois fiquei sabendo que algumas pessoas morreram afogadas no centro da cidade e 50% dos mineiros estão desabrigados, mas o avião não caiu. Logo pousou e os passageiros se levantaram para pegar suas bagagens de mão. Eu, claro, fiquei presa no cinto de segurança porque não estou acostumada, já que bicicleta e busão não têm dessas coisas. Apertei todos os botões e eles continuavam intactos. O avião esvaziou e eu continuava presa.
- Olá, tem alguém aí?
Foi o bonitinho que voltou para me socorrer. “Bom, pelo menos meu pai nunca tomou um tiro na bunda”, pensei. E desci ansiosa para encontrar o meu amigo Marcelo Amado (Guardião do Estronho) que me esperaria no aeroporto.
Lá estava ele. Depois de um abraço apertado, decorrente de uma vontade enorme de nos conhecermos, entreguei R$ 120 em sua mão e dei as instruções, na esperança de encontrar alguma promoção:
- Me compra um marido mineiro e o troco em queijo.
E, graças à generosidade da ONG1, não tivemos nem cinco minutos para conversar:
- Tudo bem? E as crianças? E todo mundo? E o emprego? E a família? E o América? E a pintura? E o site? E o carro? Tá tudo bem?
- Sim.
O táxi chegou e fomos para o evento.
O evento
Se isso fosse um filme, eu abriria a porta na frente da Serraria Souza Pinto e a câmera filmaria, de baixo para cima, meu scarpin preto, minhas pernas, minha camisa nova, meus olhos escondidos atrás de um par de óculos escuros e meus cabelos finos e sedosos balançando contra o vento. Mas a gente saiu do táxi correndo, com uma pasta na cabeça, para não encharcar nossa roupa de missa. Na entrada, bexigas coloridas e recepcionistas com roupas engraçadas.
- Vistam.
A moça da coordenação nos entregou camisetas amarelas até a cintura, com o logotipo do banco. Aquilo era um indício forte de que a tal palestra seria uma merda. Só não era mais forte do que o Ilariê tocando ao fundo e os palhaços tentando apertar a mão da minha companheira de aventuras e fazendo fom-fom no meu nariz. Mas eu me recusava a acreditar que tinha sido mandada para discursar sobre projetos sociais em um lugar que mais parecia a Disneylândia mineira.
Era óbvio que nós tínhamos pegado o avião errado. Já vi isso acontecer em um filme, mas o Makaulin Qualquin desceu em Nova Iorque. Nós tínhamos entrado em um mundo paralelo mágico, com casinhas de chocolates, um rei de marximélou, na Terra Encantada dos pirulitos. Só percebi que não era nenhum tipo de engano, quando um anão chamou a minha amiga japa pelo nome:
- Cristiane, me siga.
Minha mãe sempre disse que eu nunca deveria seguir anões, para onde quer que eles fossem. Eles são como aquelas notas de dólar amarradas por uma cordinha que você nunca consegue pegar. Atrás de uma enorme parede, pessoas com malabares, pipocas e cachorros-quentes gratuitos, pula-pula, mulheres barbadas, telefones públicos e o nosso pequeno stand da Fundação do Banco. Me dei conta do que nos esperava o dia todo quando vi que na nossa frente havia uma cama elástica e uma parede de velcro, onde os monitores arremessavam crianças com macacõezinhos de velcro e elas ficavam presas a 20 cm do chão. Uma verdadeira aventura.
O Banco tem um projeto voltado para as famílias dos funcionários. Todos os anos, existe um dia onde os caixas podem ver seus gerentes dançando Macho Man em cima do palco e as crianças grudam suas bocas cheias de algodão doce na calça social da chefe do pai. Nesse caso, a calça social era minha porque eu era a única que estava bem vestida no recinto: todos tinham sido avisados que convinha vestir o moleton mais surrado do armário e aquela camiseta do deputado tal que a gente ganha em época de eleição.
Claro que ninguém queria saber de projetos sociais que o tal banco financia e a nossa diversão era ver uma monitora tentando desenhar o homem aranha no braço das crianças na frente do nosso stand, além de ver as respectivas esposas dos funcionários, todas acima do peso, brincar de bungee jump na cama elástica infantil e despencar de lá de cima quando a corda de segurança se abria.
Não era nem meio-dia e meus pés tinham bolhas de sangue em nas laterais.
- O que tem pra comer?
- Me disseram que os cachorros-quentes estão liberados para nós...
- Ugh!
Nem fodendo eu ia comer cachorro quente, se todos os grandes chefes da ONG1 costumam almoçar na Argentina e jantar em Paris uma vez por semana. Saí para andar atrás de um restaurante e de um sapato, sem me dar conta de que o evento tinha sido feito no lugar mais perigoso de Beagá, a não ser pelas crianças assaltando com cacos de vidro e pipando crack. Lá estava Leonor, mancando com seu scarpin peruérrimo, no centrão da cidade.
Quarenta minutos de caminhada depois, eu tinha perdido dois dedos do pé e passado por um Mc Donald’s e por um Habib’s. “Tenho 20 minutos para comprar um sapato, almoçar e voltar para o evento”, pensei. Parei na frente de uma loja e vi um tênis por R$ 36. “É esse”. Quando entrei, dei de cara com o preço de uma sapatilha, brilhando: R$ 12. Coloquei elas nos pés, joguei o dinheiro em cima do balcão e saí correndo, atrás de um restaurante mineiro para me deliciar com aquelas comidas feitas no fogão a lenha. Achei um chinês, com lama no chão.
Depois que voltei à feira, o tempo custava a passar.
- Vai dar segunda-feira, mas não vai dar 6h – disse para Cris.
O ápice da tarde foi um artista ultra-famoso de quem eu nunca tinha ouvido falar. Ele parou no nosso stand (para a filha pintar a cara, claro) e 9 mil pessoas de aglomeraram ao seu redor para pedir autógrafos. Certamente, foi o ser mais famoso que já apareceu na minha frente e eu nem sabia seu nome. Me contaram que era um tal de Dudu que apresentava um programa de esportes regional.
Era dez pras 6h quando fui ao banheiro e de lá não saí mais. Só quando chegou o táxi e eu me joguei pra dentro. Lembrei que pedido pro Marcelo comprar meus queijos e pra me ligar quando fosse me encontrar, mas meu celular, adivinha, não pegou em Beagá.
A volta
Cheguei no aeroporto e vi cachaças mineiras vendendo em uma lojinha.
- Qual é a melhor?
- TODAS SÃO BOAS, SÃO SÓ DE REGIÕES DIFERENTES!
A vendedora ficou nervosa com a pergunta.
- Mas deve haver alguma melhor.
- Tem sim, mas ela custa R$ 240.
Queria ter dinheiro para pedir uma caixa e assim calar a boca daquela mulher que me chamou de pobre e de sem-condições-de-comprar, mas eu não tinha mesmo as tais condições. Agradeci e fui sentar. De lá detrás, Marcelo vinha como se tivesse adivinhado que eu já estava no aeroporto.
- Querida, tem 19 kilos de queijos e doces no carro.
- Rá, não comprou o marido né?!
Despachamos a bagagem e mais um kilo eu teria pagado uma taxa de alfândega. Marcelo veio para provar que o que o povo mineiro não tem de restaurante no centro da cidade, tem de simpatia e amizade. Eu levantei uma placa de “Eu já sabia!” porque é um cara que sempre me ajudou em todos os tipos de perrengues sem nem me conhecer pessoalmente. Um artista brilhante, um sujeito de ouro.
Antes de embarcar, mais uma surpresa. Uma menina bonita pra xuxu veio me cumprimentando desde lá do fundo do aeroporto. Eu fiz uma cara de “quem será essa louca?” mas quando ela chegou pertinho, percebi que metade de sua sobrancelha era branca e que só tinha uma pessoa assim no mundo:
- NATÁLIA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E ela veio pra confirmar tudo o que já tinha atestado com o Marcelo, mais o fato de que o povo mineiro tem uma mediunidade fora do comum e uma capacidade incrível de adivinhar a que horas sai o vôo de um paulista. Ganhei dos presentes: uma camiseta personalizada escrita “Uai, Leonor”, do Marcelo, e um pingüim de geladeira da Nati, que lembrou o fato de eu me considerar uma inútil por nunca ter conseguido comprar um bibelô desses e evitou 100 anos de terapia.
- Boa taRdi, senhoris passagei com destin a São Paulo. O poRtão treis já está abeRto para o embaRque.
Abracei meus amigos com promessas de voltar em breve e voei de volta com meu pingüim de geladeira para casa. A diferença de voar de noite e voar de dia é só uma: O Glenn Miller continua lá, no canal cinco, o avião da Tam parece que vai cair e a pepsi continua matando sua sede, mas não há nada mais emocionante do que sobrevoar a maior metrópole do Brasil a noite. Quem diz que São Paulo é feia, é porque nunca viu as trilhões de luzes piscando de lá de cima. E ninguém deveria deixar o avião cair sem antes ter essa oportunidade.
NOTA1: Queria mandar um beijo especial para a Natália, que me proporcionou uma viagem agradável ao lado do meu pingüim (ela seria ultra-solitária) e ao Marcelo, que proporcionou aos meus e aos meus amigos os melhores momentos de queijo e doce de leite do universo.
NOTA2: Desculpem se o desfecho não ficou bom, mas estou vomitando e passando mal. O médico disse que é virose.
NOTA3: O http://mmagicos.blogger.com.br continua sendo atualizado com os textos brilhantes do Ronald e os meus.