Entries for May, 2005

May 16th, 2005

Ops...

NOTA1: A minha ausência nesse blog é justificável visto que, em menos de três semanas, nunca saiu tanto sobre os Gaviões nos veículos de comunicação (o que inclui rádio, televisão e jornais do Brasil e do mundo – sim, do mundo!).

NOTA2: Agora só tenho um trabalho. Amém.***

Viagem à roça, em números:

- 12 unhas postiças no lixo
- 32 picadas de pernilongo nas pernas
- meio copo de whisky
- 27 novos tios
- 140 novos primos

Viagem à roça, em letras:

Como ninguém sabe, eu fui visitar meus parentes no interior e ser testemunha ocular do acontecimento do século na família Martin: o casamento do meu primo Gustavo. Trinta e tantos anos, solteiro convicto, machista inveterado, pegador incondicional, era quase impossível acreditar que aquele momento realmente aconteceria.

Muito mais no estilo “se ele conseguiu, eu também consigo” do que no “só acredito vendo”, lá fui eu com meu filho e minha mãe sacolejar durante algumas mil horas de viagem dentro de um busão.

Saímos do Tietê por volta das 22h40 de quinta e chegamos em Olímpia às 5h30 da manhã de sexta. Para não fugir da tradição que se perpetua por anos e anos, comi pão-de-queijo da estrada (meu preferido: gosto de polvilho, farinha e sem um pingo de queijo) e tomei Toddynho. [piada] Meu filho pediu uma cachaça e um churrasquinho [/piada]. Não preguei o olho à noite toda, principalmente depois que minha mãe brigou com o rapaz ao lado que dividia a poltrona com ela.

- EIIIII, CARA. VOCÊ ESTÁ COM AS PERNAS EM CIMA DAS MINHAS!!!!!!

Senti saudades do meu pai. Ou do meu muque e das minhas facas, não sei bem ao certo.

A sexta

Chegamos na casa do meu tio, dei bom dia para a família que não via há 5 anos e fui dormir. Acordei duas horas depois e meu tio resolveu passear abraçado comigo pela cidade, apresentando, cheio de orgulho, a SOBRINHA DE SÃO PAULO. Eu. Mostrou para o moço da banca, o Zé do bar que jogava dominó com seus amigos aposentados, a Maria da padaria. “UMA BELEZURA, NÉ? PRRRRRA CASARRRRR”.

Antes que eu voltasse casada com Tonico, o pipoqueiro, fui almoçar e andar pela cidade atrás de unhas postiças. Depois, passei na manicure/pedicure/açougueira e descobri que tirar cutículas é pior que dor de parto. Sai sangue, inflama e cria pus, principalmente se você resolver colocar unhas postiças – procedimento demorado de mais ou menos 3 horas - no dia do aniversário de 15 anos da manicure. Aliás, o trabalho infantil é muito comum no interior.

Voltei para casa com as crianças (Luquinhas e a filha da minha prima) quando já era de noite. Bastou eu entrar portão adentro para a unha do dedão, linda, grande e vermelha, olhar para mim, dizer “GERALLLLLLLLLLDO!” e depois se atirar dali. Gradativamente, todas as unhas saltaram de minhas mãos e eu voltei aos cotocos originais, de três horas antes e dez reais a mais no bolso.

Não me abalei: vesti minha blusa de oncinha e fui visitar meu primo que casaria, para levar a saladeira, presente padrão da nossa família.

- Prima, você está linda.
- Primo, você parece que casou há 15 anos.

Dizem que homem engorda depois que casa. É melhor ele parar por aí. Mas, depois de vê-lo, entendi porque era melhor ele casar com sua noiva, bonita e simpática, a continuar solteiro convicto. Se a perdesse, seria difícil encontrar outra disposta a uma cama extra-king-size. A não ser nessa nova versão da Casa dos Artistas.

O sábado

Acordei (nem dormi) com 32 picadas nas pernas e umas 12 mil nos braços, não sei precisar. Meu filho mal enxergava graças a uma picada que tomou no pálpebra. Estávamos bonitos para o dia do casamento.

Nos aprontamos para a cerimônia e lá fomos nós, rumo a igreja, nos espremendo dentro de um corcel velho tanto quanto minha prima se espremia para caber no vestido de madrinha. Lucas estava de calça social, gravata, suspensório, camisa, sapato de festa e um objeto cortante no bolso para nunca se esquecer de quem ele é filho.

Na porta da igreja, fui apresentada para centenas de novos primos.

- Lelê, esse aqui é seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo, sua prima, seu primo, seu primo.

- Oi, primos – e entrei para a Igreja.

Fiquei com a incumbência de sentar do lado das crianças para cuidar delas ou elas de mim. Entraram os padrinhos, entraram os noivos e o padre começou a falar. Quando olhei para o lado, vi uma mulher com a cabeça praticamente enterrada em um dos arranjos de flor. Como ela escutava atentamente às palavras do padre, nem percebeu que um louva-deus tamanho GG, parente próximo ao dinossauro, passeava em suas madeixas. Dali por diante, não consegui prestar mais atenção. Nas crianças, porque nem tentei ouvir o que o padre falava. Só conseguia rezar por um escândalo.

Minhas preces foram interrompidas pelo Lucas que descobriu a sua braguilha:

- Olha, mamãe. Eu não tinha visto que minha calça tem esse bolso. Vou guaidai minha tesouia nele.
- Nãooooooooooooooo, Lucas!!!!!!!!!!
- Pu que?
- Porque você vai ficar sem pinto, moleque.
- Ahhhhhhhhhhh.

Então ele descobriu que dali dava para ver o que a priminha dele chama de picholé e ele não parou de abrir mais a braguilha.

Pouco antes do fim da cerimônia, o louva-deus resolveu passear pelo nosso banco e descobriu as costas de mamãe. Quando estava para colocar a décima quinta patinha na maravilhosa blusa vermelha de quem me deu a vida, resolvi avisar:

- Mãe, não se mexa. Tem um bicho laranja subindo em você.

Ela apertou os olhinhos e achou melhor não olhar. Só gritar. Minha tia quis ajudar, mirou e acertou um belo peteleco no bicho. Twist Duplo Carpado e um pouso perfeito na batata da perna de uma mulher que estava ao lado. Enquanto agradecia os aplausos e a garota gritava, a Daiane do Santos versão inseto – muito maior e mais atraente – era retirada pelo corpo de bombeiros.

Quando o casamento acabou, fomos para a festa chiqueterésima que ocorreria em um clube. Segundo meu tio, o maior do Brasil. Quiçá, do mundo. Do Planeta.

- Maior que a Disney?
- Muito maior.

Estacionamos o carro, me preparei para andar dois dias dali até o salão de festa que, segundo meu tio, equivaleria à distância de Santa Catarina à Papua Nova Guiné, mas era logo ali na frente. Sentamos em uma mesa, Lucas e Júlia saíram para brincar e pude ter um panorama geral da festa.

Arranjos e mais arranjos de flores.

- O Amor é lindo.

Lá estava a mesa de queijos, muitos queijos.

- O Amor é ótimo.

E passa o garçom com as batidas.

- O Amor é tudo.

E lá vai o garçom com as garrafas de whisky.

- Eu AMO Whisky!!!!!

Depois de constatar que a festa de casamento seria maravilhosa e que eu daria vexame, meu filho chegou na mesa cambaleando.

- Lucas, você não está bem.

E não estava. Coloquei ele dentro do carro de um dos primos e fui embora para casa, depois de meia hora na festa, meio queijo e meio copo de whisky. E dormi com o Lucas, às 11 da noite.

O domingo

Ser mãe é padecer no Paraíso. Isso se você não estiver em Olímpia. Como todos os médicos se embriagaram na festa de casamento no dia anterior e exalavam whisky, fiz uma verdadeira via-crucis para conseguir uma farmácia pro Luquinhas:

- Seu farmacêutico, o senhor poderia pegar o lampião de gás para constatarmos que essas duas bolas do Playcenter na região da garganta do meu filho se tratam realmente de uma enorme inflamação?

Sim, claro. Era a primeira e única vez que ele seria tratado como médico na vida. Ele pegou a lanterna, enxergamos um corsa amarelo, ou muito pus, na garganta da criança e receitei Amoxilina, Digesan, Tylenol e chocolate para a cura.

De tarde, a segunda via-crucis: achar uma televisão que passasse o jogo do Timão já que antena parabólica de interior só pega Rio de Janeiro e lá não tem futebol. Pensei em dividir a cadeira com o moço-comedor-de-palha do bar da esquina, mas meu tio conseguiu sintonizar a tv na torre local, sem satélite, com os chuviscos, fantasmas e todo o lado-de-lá do qual tínhamos direito. Mas deu para ver o Corinthians, então me senti um pouco em casa.

Às 11h20 da noite, entramos no ônibus e viemos de volta para a casa. Luquinhas dormiu tão bem que cheguei a vir de pé porque ele ocupou 100% dos bancos. Deve ter sido a estafa mental por ter trombado no corredor do coletivo com uma anãzinha, exatamente do tamanho dele, que viajava quase ao nosso lado. Quando isso aconteceu, ele parou e pensou por alguns minutos no que dizer para ela. Eu fechei os olhos e pedi para que não acontecesse o pior. Ele, chocado, conseguiu pronunciar:

- Ops – seguido de uma risadinha. Praticamente um diplomata.

Esqueci de dizer que quando cheguei em São Paulo eu mal parava em pé de tanta gripe. Pra provar que eu e Luquinhas não podemos com ar puro, estrelas, jegue, carroça, pão vendido na porta e sossego. Enfim, casa.

*** Sim, ainda vou escrever sobre isso.

Posted by subversiva at 05:32 PM | 26 Comentário (s)

May 21st, 2005

- Ai, mas já tá um rapazinho!!! Tá até coçando o saco!!!!

O cara

Posted by subversiva at 11:44 AM | 26 Comentário (s)

May 24th, 2005

Para Bubui, em memória*

Quando minha cachorra virou uma Martin de Macedo, eu era pouca coisa maior do que o Lucas. Me lembro direitinho como ela chegou enroladinha no meio de um amontoado de pêlos e de primos, porque nascera na chácara dos meus tios e, poucos dias depois, estava na cidade grande, fadada a conviver com duas crianças, dois adultos e uma gata de nome Sônia Lima (nome que eu havia dado por ser fã da jurada e pela semelhança dos olhos verdes).

Minha prima mais velha, sempre observadora, achou a cadelinha parecida com a atriz Bruna Lombardi. Talvez fosse o olho cor de mel, embora a atriz tenha os olhos verdes e/ou azuis. Podia ser também o contorno dos olhos, preto, como se tivesse passado lápis. Ou os pêlos brancos, misturados com dourados, mesmo eu nunca tendo reparado de fato se atriz é ou não cabeluda dessa maneira. Acho que o que minha prima viu mesmo na cachorra que se parecia com a Bruna Lombardi era a veia artística. Ou a falta dela, não importa. Ficou Bruna Lombardi Martin de Macedo.

Muitas histórias e dezessete anos depois, ela nos deixou. Simples assim: no meio de uns gemidos, da velhice, da ausência de cor, de apetite. Quando o tempo de validade venceu, quando parecia não nos deixar nunca mais. Dezessete anos de história foram cremados junto com ela. Histórias sob um ponto-de-vista meio cego, em preto-e-branco, contadas por quem não sabia falar.

O Lucas viveu apenas três anos e meio de Bruna Lombardi Martin de Macedo. Pelo menos, da metade ele nem sequer se lembra, mas viveu “Bubui” com tanta intensidade que foi difícil controlar o choro na porta da escola ao receber a notícia. Nem tentar controlar, ele tentou. Me viu na porta da escola e sabia que algo estava errado porque eu não avisei que o buscaria:

- Lucas, uma coisa triste aconteceu. A Bubui morreu.
- Vixi...

Por uns segundos ele parou, pensou e disse:

- Ahhhhhh, mas ela vai voltar.
- Não, não vai.
- Vai.
- Não vai.

E ele viu que eu não brincava. Colocou a mãozinha no rosto e chorou um choro sentido, triste, sonoro. Achou por bem repetir duas mil vezes que “queria que a Bubui voltasse do céu porque sentia saudades”. Mas ela não vai voltar.

Eu nem sabia que criança conhecia o que significava a morte. Achei que ele fosse aprender no dia-a-dia, com a perda, com a ausência, com a falta de ter alguém para puxar os pêlos, chutar para afastar do chocolate, xingar e dar bronca, alguém menor do que ele, que ele podia exercer (ou achar que exercia) algum certo tipo de autoridade, alguém para tomar conta dele ao lado da cama quando ele estivesse doente, igual a Bubui fazia todas às vezes em que ele não estava legal. Achei que na hora que o Lucas percebesse que não tinha mais ninguém no pé de sua cadeira para pedir a sua comida, ele fosse chorar.

Mas ele chorou antes, me pegou com as calças curtas e achei melhor dizer que todas às vezes que ele sentisse saudades, eu contaria uma das tantas histórias que a Bubui viveu nos 17 anos em que esteve na nossa família.

Já contei quatro: de quando ela avançou na minha mãe para defender a mim e meu irmão de uma surra que tomaríamos em pleno chuveiro, do dia em que ela foi operada do olho e teve de usar um “abajur” na cabeça para não tirar os curativos, de quando ela voltou de caminhão lá de Olímpia, junto com minha mãe, porque foi proibida de viajar no ônibus mesmo com aqueles transportes especiais. Mas a história que ele mais gostou e que o fez parar de chorar foi a do dia em que voltei da maternidade, carregando um bebezinho e a Bubui me olhou com cara de “não gostei desse brinquedo novo.”

Bruna era assim: nome de global e “cão cara do dono”. Não tinha sangue espanhol, mas era ranzinza como eu e mamãe. Justa. Dura. Cara de “não me encha agora” ou “estou com dor de cabeça”. Ao mesmo tempo, o olhar piedoso de meu pai quando fazia alguma merda. E foram tantas vezes que recebi aquele olhar, depois de ter pisado em xixi de cachorra descalça, de meia, de sapato.

Muitas histórias para contar ao Lucas, uma para cada dia de saudade. Repetidas para mim também, em alto e bom tom.

Posted by subversiva at 02:05 PM | 30 Comentário (s)

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