Toddynho com o Camisa 10

No dia em que o Corinthians, administrado pela MSI, perdeu do Fortaleza por 2 a 1, fui conhecer o Neto. Mais do que isso, fui entrevistar o Neto para o livro sobre os Gaviões da Fiel.
Lembrei de um post da Lígia, amiga do Lance!, em que ela diz sobre entrevistar seus ídolos e fingir que nada de anormal acontece. “(...) Fazer pose de quem nem se importa, fingir que não vibro quando o cara faz um puta gol de falta e classifica o meu time para a semifinal.”
Palavras da Lígia que ressoavam a manhã toda com a ressaca de cerveja-martini-cuba do dia anterior e um enorme bolo no estômago, fruto do nervoso de estar muito próxima a um dos momentos mais importantes da minha vida.
Indo para a Transamérica, onde o relato aconteceria, eu carregava dentro do peito histórias de uma criança que se apaixonou pelo Corinthians diante da raça e do amor de um camisa 10 por aquele clube.
Eu nasci corinthiana e é meu destino sacramentado torcer pelo Corinthians até o último suspiro. Mas a intensidade desse meu sentimento foi decretada ali, nos tempos de infância, em que vi, ouvi e senti os chutes, os dribles e as cobranças de falta com o pé esquerdo daquele que é meu maior ídolo no futebol. Porque o Neto tinha mesmo o coração na ponta de cada chuteira alvinegra.
Já havia conversado com ele pelo telefone em um dia de muita sorte:
- Leonor, você conseguiu o número da minha casa e ligou no meu único dia de folga. Claro que concedo a entrevista.
E tinha combinado de encontrá-lo na porta da Transamérica. Como lá tem muitos portões, eu e Júlio, amigo a tira-colo e grande fã do Neto também, ficamos do outro lado da rua. Ao olhar mais atentamente, vi Neto dentro da rádio, com uns óculos escuros grandes e camisa rosa. Magro. Ele acenou para mim e perguntou:
- Leonor?
Respondi com um enorme sorriso. Ele não sorriu. Pelo contrário, estava de mau humor. E avisou:
- Já vou logo falando que estou de mau humor por uns problemas pessoais. Também não gosto de dar esse tipo de entrevista e falar daquilo que já passou até por me causar uma tremenda saudade. Mas para você eu vou conceder a entrevista. Porque foi muito simpática no telefone.
Pensei que eu e Neto estávamos quites, já que hoje também era o dia da minha TPM. E agradeci à mamãe por ter me dado boa educação para falar ao telefone, sem nem ter que precisar de uma faculdade de relações públicas para isso.
Nos 50 minutos que se seguiram, ele não pareceu em nenhum momento ter os tais problemas pessoais. Contou como começou no futebol, sua relação com os Gaviões da Fiel, com a diretoria do Corinthians, como lida com a vaidade. Mandou-me parar de roer as unhas (desde o “oi” até o “muito obrigada pela entrevista”, eu não tirei a mão da boca), assinou uma camisa para o Lucas, uma para mim, falou da filha, tirou foto conosco e acompanhou a gente até a porta.
Por vezes, senti uma tremenda vontade de chorar, mas me segurei. Já não era mais o nervoso, muito menos a ressaca. Era saudade. Saudade igual a que o Neto não gosta de sentir porque, como diz o cancioneiro popular ou um humorista da Praça é Nossa, “é tempo bom que não volta mais”. E eu nem sabia que o Corinthians perderia de virada para o Fortaleza, na partida em que o Roger chutou apenas uma vez para o gol (de bola parada), mesmo com seu salário de R$ 70 mil.
Quando saí da entrevista, estava feliz. Por ter conhecido um dos meus maiores ídolos, por tudo ter dado certo, por ter rendido uma puta entrevista, por ter o Júlio dividindo um dos momentos mais especiais de toda a vida, por ter uma camisa autografada pelo camisa 10, por ter um filho corinthiano, pela minha escolha de tentar mudar o mundo por meio do futebol.
Subi a rua com o Júlio, em direção à padaria para comprar um Toddynho, e só conseguia dizer “foda”. Como tinha sido foda. Comprei o leite e saí da Dona Deôla para esperar o Júlio que comprava um refrigerante. Então o Neto surgiu na porta da padoca novamente:
- Leonor, entra para tomar um café comigo.
- Valeu, Neto, mas já paguei meu Toddynho.
- Entra lá, pô. To pedindo!
Era o Neto pedindo, pô. Entrei de novo na padaria e o Júlio, que procurava um canudinho, olhou para mim sem entender nada.
- Vamos tomar um café com o Neto, Júlio...
Conversamos sobre nossos filhos, sobre o Mauro Beting, sobre apresentar um programa na Bandeirantes, limite de banco, Bom Retiro, camiseta dos Gaviões, coxinha de frango e charutos cubanos. Combinamos de fumar um Cohiba juntos no Center Norte.
- Te ligo, Leonor.
- Vê se liga, hein, Neto!
Depois de um abraço, nos despedimos, como velhos amigos. Sem exagerar uma palavra. Com o testemunho do Júlio. E eu ali feliz por ser corinthiana.
“Por que é especial ganhar um título no Corinthians? Você se lembra de quem ganhou o campeonato brasileiro de 91? E de 92? E de 93? Todo mundo se lembra de quem ganhou o campeonato brasileiro de 90, seja corinthiano, são paulino, palmeirense, santista. É especial ganhar um título no Corinthians, porque no Corinthians tudo é diferente”. José Ferreira Neto
Simples assim.
Posted by subversiva at 11:21 PM | 27 Comentário (s)