Integro o departamento de comunicação da Gaviões da Fiel, formado por essa diretoria recente, que se elegeu em abril pelo voto direto do associado. Tonhão (Wellington Rocha Júnior) e Pulguinha (Wildner D Paula Rocha), presidente e vice-presidente, assumiram o comando da organizada e hoje continuam a escrever essa história de luta.
No começo da gestão, Pulguinha me contou de seu interesse em fortalecer o departamento de comunicação, essencial para as pretensões dos Gaviões de hoje. Reivindicar pelo Corinthians, pelas organizações populares, pela descentralização da informação, informar os jornalistas esportivos, reclamar quando escreverem besteira. Nada disso seria possível sem um setor de comunicação.
Contei a ele sobre meu interesse de escrever o livro para o TCC e, talvez, para publicação. Mas informar de um outro ponto de vista: a Gaviões da Fiel como um movimento popular, formada por corinthianos de baixa renda. Por isso tão marginalizada. A idéia é contar ao associado os objetivos dos Gaviões quando a torcida foi fundada e o livro se tornar um instrumento de formação.
Com esse processo do TCC foi possível conhecer histórias que nem de longe eu imaginava que tivessem sido escritas. Busquei, conversei, ouvi muito mais do que falei.
Em 2005, tive a oportunidade de tomar um porre com o Sócrates no Pingüim, bar mais famoso de Ribeirão Preto, depois de acordar às 4h da manhã e enfrentar algumas horas de estrada até o interior de São Paulo. Dei a ele um charuto da República Dominicana para ser fumado quando seu filho, Fidel Brasileiro, nascesse. Ficamos mais de 5 horas no bar, acompanhados por muito chopp gelado e com o colarinho cremoso. Confesso que chorei em alguns momentos com as histórias que contou sobre meu time tão amado e sua luta por uma mudança mundial, a partir do futebol. Assim como ele, eu acredito nisso. E esse foi um momento que contarei para meus filhos, netos e bisnetos. Todos corinthianos.
Fui recebida por Wladimir, ex-lateral esquerdo do Corinthians e um dos pais da Democracia Corinthiana, em seu escritório na Secretaria de Esporte, Lazer e Cultura de Diadema, depois de pegar três ônibus e um metrô até o local e me perder nas ruas da cidade da Grande São Paulo. Derrubei água em seus documentos e molhei toda a minha calça. Com o sorriso no rosto, Wladimir brincou comigo e disse que contaria a todos que havia feito xixi tamanha a emoção que senti. Ficamos amigos. Wladimir até liga de vez em quando no celular para perguntar como andam as coisas nos Gaviões da Fiel. E sempre que nos vemos é uma festa, hoje, de ambos os lados.
A entrevista com Basílio, autor do gol de 1977, foi feita ao vivo, na Rádio Livre Gaviões da Fiel. Um dos instrumentos usados pela torcida de descentralização da informação. Corinthiano falando com o Corinthiano.
Me vi sentada diante do meu maior ídolo no futebol, o Neto, que me despertou esse amor tão grande que tenho pelo Corinthians quando carregou, em cada ponta de suas chuteiras, seu coração alvinegro para vencer aquele campeonato brasileiro de 1990. Coração, aliás, que nunca me enganou. Neto é corinthiano, embora diga que não. Quando cheguei para a entrevista, encontrei um Neto mal humorado, com um par de óculos escuros grandes e pensei que dali sairia sem o ídolo. Conversamos durante 50 minutos sobre o Corinthians e espantamos o mau humor e o nervosismo. Saí mais feliz do que entrei e fui tomar um leite com chocolate na padaria. Paguei a conta e quando saía, Neto entrava. Me convidou para tomar um café com ele, falamos sobre nossas vidas, demos risada. Nos tornamos, um diante do outro, pessoas normais. Exatamente do jeito que somos.
Mais importante do que estar com Sócrates, Wladimir e Neto, ídolos pelo futebol e pelas ideologias políticas, foi ouvir cada um dos fundadores ou das famílias daqueles que já tinham morrido.
As entrevistas foram feitas em shoppings, na quadra dos Gaviões da Fiel, em bares, em suas casas, em padarias, nas arquibancadas. Senhores e senhoras que, diante do gravador, perderam os pudores e derramaram lágrimas de alegria, de tristeza, de saudades. Saudades de um tempo sufocado na memória pelo passar dos anos, mas que ainda está sendo escrito.
Em 2005, foi possível entender porque faço parte dessa história, tanto do Corinthians, quanto dos Gaviões da Fiel. Por isso o livro foi escrito. É preciso contar para cada Gavião porque, de fato, ele é Gavião. Para tudo fazer mais sentido, principalmente, essa emoção racionalizada por saber que para sempre serei corinthiana.
Leonor Macedo