Querido coordenador do curso,
Eu me formei. Depois de quatro anos de universidade, me tornei uma profissional. Ok, você tem razão. Se considerarmos o número de aulas que assisti com sincero interesse, não freqüentei nem por uma semana o curso. Mas convenhamos (e você como jornalista deve saber bem do que estou falando), não é fácil conviver com outros 60, 70, 80 jornalistas, se considerarmos o número de professores. Vide o tamanho cada vez mais compacto das redações brasileiras. Bem comum encontrar um jornalista fazendo o serviço de outros quatro, mas não acho que seja só a crise no mercado. É para manter a salubridade. Mais de 40 jornalistas em um mesmo ambiente deveria ser proibido pelo Ministério da Saúde.
Nem tanto pelo tamanho do ego ou pelos ataques de vaidade, nem pelo nível alcoólico. O problema é que juntando 80, não dá 20. Jornalista é meio engraçado e conhece mais ou menos sobre aquele assunto (quase sempre mais para menos, embora ache o contrário), ele é meio legal e meio valente. Jornalista é meio revolucionário e votou mais ou menos no Lula. Mas vota Não no Referendo porque é meio medroso. Ou meio preguiçoso. Ou meio acomodado. Jornalista escreve mais ou menos bem. Gosta de ler bem mais ou menos também. É meio cego, é meio surdo, é meio mudo. É classe média. É meio amigo. O curso acaba sendo meia boca.
Claro que existem exceções e, apesar de ser (ou estar) meio surda, eu votei sim no Referendo. Outros que fizeram o mesmo curso também. Falemos a verdade, passamos do meio, mas não chegamos aos 75%. Existe um ser humano com porcentagem maior do que essa?
Não tenho muito que reclamar do curso, embora aquilo que saiba tenha aprendido com outra vivência (família de jornalista, sabe? Desde pequena vi papai ser bastante sacaneado). Só não gostava mesmo das aulas em que os professores diziam que jornalista defende a verdade e é imparcial. Ok, ok... Ouvi isso em quase todas as aulas. Pega mal, coordenador. Em pleno século XXI, pega muito mal contar uma mentira dessas. O problema é que tem gente que acredita.
Aproveito a carta para pedir desculpas pelo calote, mas você entende também. A gente só finge que ganha bem. Vocês fingem que acreditam e cobram quase R$ 1000 de mensalidade. E a gente finge que tem o CPF limpo depois de vocês fingirem piedade e mandarem nossos nomes para o Serviço de Proteção ao Crédito. Não, calma... Nem se preocupe comigo. Não será esse calote que não me mandará para o céu. Me formei jornalista, lembra? Vôo sem escala para o inferno.
Mas o inferno é fichinha perto da Rua Bresser. Principalmente depois das 22h. Você já deve ter passado uma ou duas vezes por ali de carro e tenho certeza que já presenciou algum assalto. Natural, porque ali é caminho para o metrô. Pena eu não ter carro. Eu sei, eu sei... a São Judas Tadeu não é filantrópica, mas bem podia propor um projeto de intervenção na comunidade. Ou pedir policiamento, conforme for a política de vossas santidades. O pior é que os jovens que assaltam por ali não descobriram a concorrência ainda. E diga ao Seu São Judas que isso é uma baita concorrência desleal porque o medo de perder o diploma por inadimplência é muito mais poderoso do que qualquer caco de vidro empunhado. Quem tem, paga mesmo R$ 1000 e depois não tem o que dar para o menino. Eu não tenho, me desculpem os dois.
Com muita dor no coração, me despeço dos pastéis encharcados de óleo e dos cachorros-quentes de salsicha em lata. Das noites sem meu filho. Longe da família. Das mentiras e dos tropeços (e eu não costumo tropeçar a não ser que coloquem os pés). Sem dúvida, ficará saudade depois dos quatro anos: da lealdade do Júlio e das histórias fantásticas da Maria, da gargalhada espalhafatosa da Fabi, dos palavrões da Ana, do nariz do Abdul mergulhando no Chantilly, das piadas gays do Ivan, das Macabéas andando em bloco, da sinuca em grupo e das cervejas baratas, das perguntas do Leandrinho, dos aniversários da Helô, dos descontos da Rosana e de outras coisas que não vou nomear por aqui porque fiquei com um grande déficit de memória pela falta de sono.
Enfim, acabou. Posso agora fertilizar esse mercado árido com toda a merda que tenho na cabeça. Obrigada, São Judas. Mas não mostre esse e-mail para ninguém, coordenador, porque os jornalistas são meio rancorosos e eu posso ser meio que demitida, embora eu tenha a sorte de trabalhar em um lugar que não pertence ao sonho de quase nenhum outro colega. Nunca se sabe quando um jornalista tentará se tornar meu chefe por aqui para vingar a classe. Sabe, os jornalistas também são meio vingativos...
Até 2030, quando eu conseguir pagar a minha dívida com vocês e aparecer por aí para pegar o meu diploma.
Grande abraço de uma jornalista meia boca e meio satisfeita
Leonor