Entries for May, 2006

May 1st, 2006

Precisava dividir isso com alguém. Chegou por e-mail, do orkut:

"A felicidade é um estado de espírito que transporta a pessoa a algo muito parecido ao êxtase espiritual. Agora percebo que antes de te conhecer, nunca estive realmente feliz.
Ao contrário do que quase toda gente pensa, é possível ser alguém auto-suficiente em felicidade. É só concentrar-se firmemente na pessoa que te atrai, e nos mínimos detalhes te satisfaz, então será muito fácil ser inteiramente feliz.
Querida, esse é o estado em que me encontro depois de haver te conhecido. Você é o objetivo maior de minha vida, sei que contigo ao meu lado, nada falta para minha felicidade ser completa.
Em outras palavras, o ser humano pode durante a sua vida, construir sua própria felicidade. Eu por exemplo estou construindo o edifício de minha felicidade, tijolo por tijolo, sendo você o foco do meu pensamento.
Esta mensagem foi enviada por Anderson Ricardo Da Silva. Para ver o perfil de Anderson Ricardo, clique em:
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=14707948917447549256."

E eu nunca vi mais gordo.

Posted by subversiva at 09:35 PM | 9 Comentário (s)

May 3rd, 2006

Três casamentos e um funeral - Parte I

Nesse fim-de-semana/feriado muita coisa aconteceu: o Corinthians perdeu da Ponte Preta, teve pizzada com os amigos lá em casa, feijoada com os amigos na Gabi, o Garotinho entrou em greve de fome, o Daygo fez seu outing, o Tom Cruise desmentiu o boato sobre comer a placenta do próprio filho (como se come uma placenta? De colher ou de canudinho?), o Morales mostrou os culhões bolivianos que o Lula não tem por ser brasileiro e fui no último dos três casamentos de abril. Hora de postar sobre as três cerimônias do mês, como prometido.

Os três casamentos de abril

Saldo

105 doses alcoólicas

12 kilos a mais

200 vezes a música “Se ela dança, eu danço”

Nenhum acompanhante

Nenhum buquê

Sexta-feira, 21 de abril, feriado de Tiradentes

Já repararam que ninguém trabalha nos feriados, só o pessoal das Lojas Americanas? Não tinha um salão aberto para fazer a unha (que unha?), uma escovinha no cabelo e uma maquiagenzinha básica. E lá nas Lojas Americanas ninguém podia pentear minhas madeixas e parar de atender em ritmo frenético os milhares de paulistanos que resolveram passear no único lugar aberto da cidade, sob o risco de ser demitido.

O jeito foi ir com as unhas borradas por mim mesma, com o corte do Adílson ajeitado pela mamãe e uma maquiagem dos anos 80. Ainda bem que o vestido bonito tinha sido emprestado pela Mari e o sapato eu comprei no natal para as 200 festas de formatura que tive no ano passado.

Como eu era madrinha do Rafão, grande amigo que fiz nos Gaviões e nas arquibancadas corinthianas, a ordem era chegar cedo para definir a entrada dos padrinhos no altar, montado no salão de festas da suntuosa Maison Saint German, em Osasco. O Pavão (calma, calma, o amigo dos Gaviões e não o ex-namorado) passou para me buscar e quase nem reconheci por dois motivos: ele não carregava um copo de cerveja na mão e ele não usava uma touca dos Gaviões. E lá fomos nós.

Chegamos realmente cedo, antes até do noivo e de toda a sua família. Pra nossa sorte já eram servidos alguns canapés e pequenas doses alcoólicas. Não estávamos nem a 20 minutos no lugar e eu já segurava as lágrimas em uma tremenda depressão, conseqüência do Martini que causa esse tipo de efeito em mim quando consumido em quantidades assustadoras (me lembro de um reveillon, quando eu só tinha uns 14 anos e estraguei a noite de todo mundo depois de tomar um porre de Martini e chorar compulsivamente, dizendo que a minha vida era uma bosta).

Mas parece que não era só eu que havia abusado dos garçons (no melhor sentido). Uma mulher rolou a escada no melhor estilo vídeo-cassetada bem na nossa frente e logo a depressão passou. Eu e Pavão começamos a rir descontroladamente, ignorando a cara de dor da pobre moça que, apesar de tudo, caiu com uma tremenda classe. Rolou lentamente, levantou e levou as mãos às nádegas, sob um vestido longo e preto, mancando um pouco com seu salto 30. Foi impossível não rir. Pena que o marido e a filha dela estavam ao nosso lado.

Aí o Pantchinho chegou com a Gi, sua esposa, e a Li, sua filhona de quatro anos. Ele seria padrinho junto comigo. Foi a vez que eu cheguei mais perto de ser madrinha de bateria, já que ele é mestre da mesma nos Gaviões.

Duas horas depois, eu estava meio zonza e os organizadores do cerimonial começaram a nos alinhar e a explicar como deveríamos fazer. Eu e Pantchinho nada entendíamos e trocávamos de lugar na fila para ficar atrás e ver se conseguíamos copiar os padrinhos da frente. Ficamos por último.

O lugar estava lindíssimo. Deveríamos cruzar uma passarela colocada em cima da piscina estrategicamente já que se alguém caísse deveria ser paga ao lugar uma multa no valor de R$ 1.300,00. Sobre a passarela, um tapete vermelho. Luxuosíssimo, se não fosse escorregadio e se a mulher-que-rolou-a-escada não tivesse torcendo por vingança. Quase (e por muito pouco mesmo) o Rafa desembolsou R$ 2.600,00 pelo casal de padrinhos Lelê-Pantchinho.

Nunca tinha ido a uma cerimônia espírita e foi realmente emocionante. Um texto bonito sobre homens e mulheres foi lido e as lágrimas rolavam em todos os rostos dos presentes. Até chegar a bateria dos Gaviões para dar o nosso presente de casamento e todo mundo fazer cara de pavor. Eu sei, eu sei, assusta mesmo ver chegar uns 15 caras de 2x2, vestidos com touquinhas, bonés e conjunto completo de torcida organizada.

Como “os últimos serão os primeiros”, eu e Pantchinho deveríamos sair na frente dos outros padrinhos no final da cerimônia, mas estávamos ocupados demais, deslumbrados lá na frente e dando tchauzinho pra Deus e o mundo. Tudo sendo devidamente filmado, até o pessoal falando de canto de boca em meio aos sorrisos pra gente andar logo porque atrapalhávamos o andamento do casamento.

Tiramos fotos, gravamos um depoimento: “Porque nos conhecemos no amor alvinegro pelo Coringão, certo, mano. Que seus filhos seja tudo Coringão, certo?! Felicidades, certo?!”, e fomos para o palco com o presente: um show da bateria dos Gaviões. Foi sensacional. Velhinhos e velhinhas cantando “Sou maloquÊÊÊÊÊRO” e caindo no samba. Até eu mostrei tudo o que uma jornalista do terceiro setor tem, ou seja, merda nenhuma.

Depois do show, lotados uma mesa de Gavião e todo mundo estava preocupado em comprar as passagens de avião para o jogo contra o River, em Buenos Aires. E com toda a finesse do mundo, o Tatinho pediu um guaraná pro garçom:

-          AE, IRMÃOZINHO. TEM A MORAL DE ME TRAZER UM GUARANÁ??? HEIN??? ÃHM??? TEM A MORAL OU NÃO, PORRA? TÔ MORRENDO DE SEDE AQUI, CACETE!!!!

Depois do guaraná envenenado, os meninos entraram no caminhão e seguiram para a quadra. Eu, Pavão, Pantchinho, Lívia, Gi, Viola, Fábio e namorada e mais um rapazote que não me recordo o nome com sua digníssima esposa ficamos por lá, bebendo e contando histórias alucinantes da torcida, de jogos do Corinthians e de viagens.

O povo se matava na pista (Se ela dança, eu danço) enquanto eu e a Lívia, de quatro anos, cochilávamos na cadeira. Sou velhinha, poxa. Aí acordamos e ela resolveu gritar para uma senhorinha na mesa ao lado que ela parecia uma mariposa. A senhora, não a Lívia.

Então, eu disfarçava na mesa que não estava interessada na hora do buquê, mas não tirava o olho da movimentação. 

- O que você olha tanto para a pista, Lelê?

- Nada...

Até que o Rafão chegou, bateu a mão no meio da mesa e disse:

- CORRE, Lelê!!! É A HORA DO BUQUÊ!!!!!

Eu saí correndo ensandecidamente, atropelando todo mundo que via na frente e nem olhei atrás, só imaginando os meus amigos em choque por ver a necessidade de desencalhar.

Me coloquei estrategicamente entre as tias velhas, ao lado de uma manca e de uma cega e pela primeira vez em toda a minha vida o buquê passou perto. Tão perto, mas tão perto que entrei em pânico e nem levantei sequer um dedinho para pegar. Caiu no colo de uma transeunte que passava pelo local.

- MERDA!!!! - ela exclamou - Quem pega o buquê nunca casa!

Eu dei um suspiro meio aliviado, meio decepcionado e voltei pra mesa. Lá pela uma da manhã eu dei a entender para a minha carona que já era tarde e que acordaria cedo no dia seguinte porque teria outro casamento, mas a essa altura do campeonato o Pavão já tinha voltado a ser Pavão e segurava três copos de cerveja. Não me restou outra coisa senão beber, pois a minha companheira de derrota dormia profundamente no colo da mãe e a minha mãe dormia profundamente na Vila Pompéia.

Às três da madrugada, todas as pessoas de bem estavam em suas respectivas casas. Sobravam no recinto os advogados, os jornalistas e os membros de torcida organizada, sendo eu a jornalista-membro-de-organizada. Foi quando chegou na nossa mesa uma menina absolutamente embriagada, gritando que queria ser delegada. Depois de assustar todo mundo, ela se uniu aos outros advogados que ameaçavam se jogar na piscina só para sacanear o noivo. Normal. Eles tinham que sacanear alguém.

-          Gente, e ISSO quer ser delegada – comentei com um rapaz desconhecido que sentou ao meu lado.

-          Eu sei. Eu namoro a ISSO.

Silêncio constrangedor.

-          To bêbada.

E segui correndo para a pista dançar.

Às quatro, o Pavão achou melhor ir embora. Talvez fossem as luzes apagadas, ou as cadeiras em cima das mesas, ou mesmo os garçons que já não serviam nada e estavam sentados na escada com roupas normais, esperando os últimos convidados irem embora. Talvez não. Mas lá fomos nós, todos espremidos em um Celta: eu, Pavão, Fábio, namorada do Fábio, o rapazote-sem-nome e o Viola.

Assim que entrou nos seus dois cm2, o Viola dormiu e começou a sonhar com algo bastante suculento, pois babava muito em seu próprio braço. Na frente da Mancha Verde e da Acadêmicos de Savóia, torcidas organizadas da porcada, paramos o carro.

-          Chegamos, Viola.

Ele acordou, desceu, olhou e o resto a gente nem sabe porque já era tarde da noite e hora de voltar para casa. Mas dizem que ele passa bem. (continua)

 

Posted by subversiva at 01:22 PM | 10 Comentário (s)

May 16th, 2006

O retorno de Marcola e Bia Falcão

Aí ontem aqui em São Paulo foi mais ou menos assim:
 
O Marcola comandou uma ofensiva do PCC e transformou o Fernandinho Beira-Mar no Didi Mocó.
 
O governador Cláudio Lembo dizia estar tudo sob controle, enquanto o Datena, aos berros, pedia “GUERRA!!!!” aos bandidos porque queria paz. O comandante da Polícia Militar de São Paulo colocava a culpa na imprensa, mas o Capez disse que a culpa é das torcidas organizadas. Houve até quem acreditasse piamente que a causa, motivo, razão e circunstância para tudo o que ocorreu foi a eliminação do Corinthians na Libertadores. A culpa é sempre do Betão. Mas é realmente mais fácil acreditar nisso do que na explicação do Secretário de Segurança Pública: o motivo de tudo isso foi a negativa à instalação de 60 televisões para os presos assistirem a Copa.
 
Alguns paulistas reivindicavam que aqui deveria ser o Pan, já que até no crime São Paulo é melhor que o Rio de Janeiro. Outros guardaram seus pertences no carro e alugaram um barraco na favela da Rocinha porque lá aparentava ser mais seguro.
 
Era o dia de sorte do meu ex-namorado que comemorava a suspensão do rodízio e a liberação de sua placa final 1.
 
Um menino do trabalho ficou feliz porque “era o início da revolução”, um outro, bem mais sensato, alegou que o objetivo era tão capitalista quanto o revolucionário dono das Casas Bahia.
 
Outro colega de trabalho defendeu que deveria ser arrancada a orelha de cada um dos integrantes do PCC porque a sua mulher, enfermeira de um hospital na Parada de Taipas, foi liberada do serviço na hora do almoço já que corria um boato de que a noite a facção criminosa só pouparia a pediatria.
 
Aqui no trabalho me pediram para ir fotografar um evento que ocorreria dentro de uma favela em São Miguel Paulista, na zona leste. Enquanto eu vestia um colete a prova de balas e meu capacete de bicicleta, alguém de bom senso cancelou o evento e eu não precisei cumprir a tarefa.
 
Eu ajudei a disseminar por aqui o toque de recolher, correndo o risco de ser presa sem saber. Isso depois de um rapaz aqui da ONG me alertar, e outro, e outro, e toda a equipe me fazer ligar para uns amigos na Folha, que me confirmaram a informação.
 
Na hora do meu almoço, fui a um restaurante com os amigos e nos sentamos a dois andares de um pessoal da CET que costuma almoçar no mesmo lugar, só por precaução. Depois vimos o tamanho da piração, já que é impossível o PCC saber que no restaurante KAMKI na Arthur de Azevedo almoçam muitos CETs. Bom, agora não sei.
 
Os Setúbal não vieram trabalhar porque algumas de suas agências bancárias foram incendiadas.
 
Por conta da falta de transporte e do excesso de fogo nos ônibus, algumas pessoas não puderam chegar no trabalho, como as faxineiras daqui. Ficou tudo impraticável por aqui e as pessoas preferiam arriscar suas vidas nas ruas a usar os vasos sanitários da ONG. Em poucas horas, o PCC, mesmo que involuntariamente, interditou nosso banheiro. Aí, tudo era o PCC. A ambulância da SAMU que transportava o velhinho de 185 anos com falência múltipla nos órgãos, na verdade levava às pressas ao Hospital das Clínicas uma criança ferida com 45 tiros no tórax e abdômen. A senhora que tropeçou nas calçadas irregulares da Avenida Rebouças tinha sido era empurrada por um bandidinho encapuzado que levava nas mãos três galões de gasolina para incendiar ônibus, metrô, trem e o dirigível da Goodyear.
 
Na Teodoro Sampaio, as bombas que fizeram os comerciantes abaixarem as portas não explodiram. Nem na 25 de março. Nem na Libero Badaró. Nem em lugar nenhum, mas todo mundo voltou mais cedo para casa.
 
Passei no supermercado e enquanto eu enchia o carrinho de pão e salsicha, umas senhoras gastavam toda a renda familiar com água, farinha, feijão e coca-cola, esperando a Terceira Guerra Mundial. Já um velhinho comprava três pacotes de cigarro porque “antes morrer de câncer a morrer de tiro”.
 
As operadoras de caixa do Hortifruti invejavam as do Supermercado Dia porque lá tinha fechado as portas às 4h da tarde, enquanto elas ainda teriam de trabalhar até sabe-se lá que horas. “Até alguém morrer aqui dentro”, me garantiu uma delas. Eu achei meio improvável alguém querer matar um civil dentro de um Hortifruti perdido na Pompéia.
 
O Júlio se preocupava com suas centenas de figurinhas repetidas da Copa do Mundo e o prefeito Kassab se escondeu debaixo da cama.
 
O Santini chegou no aeroporto de Congonhas pouco depois de uma ameaça de bomba evacuar o saguão principal. Aí ele aproveitou que não tinha fila e tomou um café.
 
Minha mãe, que já foi a diversas manifestações na época da ditadura militar, pedia exército nas ruas. Meu pai, que saiu às 23h30 do trabalho, escreveu um e-mail de despedida para os familiares.  
 
Tentei explicar para o Lucas porque ele estava mais cedo em casa e porque eu também estava, mas meu filho me alertou que ele já sabia o que era PCC e que preferia ver o vídeo da Cinderela. Achei justo.
 
Os parentes das vítimas pediam a presença dos Direitos Humanos e exigiam Tolerância Zero. O Willian Bonner apresentou o JN aqui de São Paulo como, segundo o mesmo, uma forma de prestar solidariedade ao povo paulista. Lembrei do Homer Simpson na versão “Orra, meu!”
 
Aí eu fui dormir mais cedo, já que até meu encontro o Marcola tinha conseguido ferrar. O dele com a advogada no presídio de segurança máxima (mesmo não tendo direito por 40 dias) ninguém ferrou. Dizem, inclusive, que foi incentivado porque ela levaria uma proposta para a vida de São Paulo voltar ao normal:

-          A gente libera as tevês.

-          Com Ricardinho, Rogério Ceni e Cris pode ficar.

-          Mas a gente também devolve a maior fatia do bolo.

-          Fechado.
 
Os ônibus voltaram para os terminais e os passarinhos voltaram a cantar. O governador e o ex-governador, candidato a Presidência da República, que mal foi lembrado nisso tudo, respiraram aliviados e viveram felizes para sempre. FIM (pelo menos até o próximo episódio da novela “Não nos dobraremos ao crime organizado de São Paulo”, escrita, dirigida e produzida por Geraldo Alckmin e protagonizada por Cláudio Lembo).

Posted by subversiva at 12:38 PM | 16 Comentário (s)

May 18th, 2006

Stédile, sai desse corpo que não te pertence

Burguesia terá de abrir a bolsa, diz Lembo

MÔNICA BERGAMO
Colunista da Folha de S.Paulo

O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, afirma que o problema de violência no Estado só será resolvido quando a "minoria branca" mudar sua mentalidade. "Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa", afirmou. "A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações."

Lembo criticou o ex-governador Geraldo Alckmin, que disse que aceitaria ajuda federal contra as ações do PCC se ainda estivesse no cargo, e o ex-presidente FHC, que atacou negociação entre o Estado e a facção criminosa para o fim dos ataques. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Folha - Os jornais estão noticiando hoje [ontem] que houve uma matança em São Paulo na madrugada de terça. A polícia está sob controle ou está partindo para uma vingança?

Cláudio Lembo - A polícia está totalmente sob controle. Eu conversei muito longamente com o coronel Elizeu Eclair [comandante-geral da PM] e estou convicto de que ela está agindo dentro dos limites e com muita sobriedade. Todas as noites há confrontos nas ruas da cidade e esses conflitos foram exasperados nesses dias. Mas vingança, não. A polícia agiu para evitar o pior para a sociedade.

Folha - Foram 93 mortes. Elas estão dentro dos limites? O senhor tem segurança que todos que morreram estavam em confronto?

Lembo - E o conflito que houve da cidade com a bandidagem? Foi violento. É possível que tenha havido tragédias, mas pelo que estou informado não houve nada que fosse além dos confrontos diretos.

Folha - Só no IML (Instituto Médico Legal) estão 40 mortos e não se sabe nem o nome dessas pessoas.

Lembo - Os nomes vão ser revelados. Estamos resolvendo questões burocráticas, de identificação, mas vão ser revelados.

Folha - Jornalistas da Folha entraram no IML e viram fotos de pessoas mortas com tiros na cabeça. Que garantia a sociedade tem de que não morreram inocentes e de que o Estado, por meio da polícia, não está executando essas pessoas?

Lembo - Não está, de maneira alguma. E digo a você: fui muito aconselhado a falar tolices como "aplique-se a lei do Talião". Fui totalmente contrário. Faremos tudo dentro da legalidade e do Estado de Direito.

Folha - O senhor não se assusta com o número de mortos?

Lembo - Eu me assusto com toda a realidade social brasileira. Acho que tudo isso foi um grande alerta para o Brasil. A situação social e o câncer do crime é muito maior do que se imaginava. Este é o grande produto desses dias todos de conflito. Nós temos que começar a refletir sobre como resolver essa situação, que tem um componente social e um componente criminoso, ambos gravíssimos. O crime organizado trabalha com a droga. A droga é um produto caro, consumido por grandes segmentos da sociedade. Enquanto houver consumidor de drogas, haverá crime organizado no tráfico. É assim aqui, na Itália, nos EUA, na Espanha. O crime se alimenta do consumidor de drogas.

Folha - E da miséria...

Lembo - Talvez no Brasil tenha esse componente também. O crime organizado destruiu valores. O Brasil está desintegrado. Temos que recompor a sociedade. A questão social é muito grave.

Folha - O senhor é um homem público há tantos anos, está num partido, o PFL, que está no poder desde que, dizem, Cabral chegou ao Brasil.

Lembo - Essa piada é minha.

Folha - O que o senhor pode dizer para um jovem de 15 a 24 anos, que vive em ambientes violentos da periferia? Que ele vai ter escola? Saúde? Perspectivas de emprego? Como afastá-lo de organizações criminosas como o PCC?

Lembo - Acho que você tem duas situações muito graves: a desintegração familiar que existe no Brasil, e a perda... Eu sou laico, é bom que fique claro para não dizerem que sou da Opus Dei. Mas falta qualquer regramento religioso. O Brasil está desintegrado e perdeu seus valores cívicos. É ridículo falar isso mas o Brasil só acredita na camisa da seleção, que é símbolo de vitória. É um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais...Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa.

Folha - Que ficou assustada nos últimos dia.

Lembo - E que deu entrevistas geniais para o seu jornal. Não há nada mais dramático do que as entrevistas da Folha [com socialites, artistas, empresários e celebridades] desta quarta-feira. Na sua linda casa, dizem que vão sair às ruas fazendo protesto. Vai fazer protesto nada! Vai é para o melhor restaurante cinco estrelas junto com outras figuras da política brasileira fazer o bom jantar.

Folha - Tomar conhaque de R$ 900 [preço de uma única dose do conhaque Henessy no restaurante Fasano].

Lembo - Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país.

Folha - O senhor acha que essas pessoas são responsáveis e não percebem?

Lembo - O Brasil é o país do duplo pensar. Conhecemos a inquisição de 1500 até 1821. Então você tinha um comportamento na rua e um comportamento interior, na sua casa. Isso é o que está na sociedade hoje. Essas pessoas estão falando apenas para o público externo. É um país que é dúbio.

Folha - Onde o senhor responsabiliza essas pessoas?

Lembo - Onde? Na formação histórica do Brasil. A casa grande e a senzala. A casa grande tinha tudo e a senzala não tinha nada. Então é um drama. É um país que quando os escravos foram libertados, quem recebeu indenização foi o senhor, e não os libertos, como aconteceu nos EUA. Então é um país cínico. É disso que nós temos que ter consciência. O cinismo nacional mata o Brasil. Este país tem que deixar de ser cínico. Vou falar a verdade, doa a quem doer, destrua a quem destruir, porque eu acho que só a verdade vai construir este país.

Folha - Mas qual é, objetivamente, a responsabilidade delas nos fatos que ocorreram na cidade?

Lembo - O que eu vi [nas entrevistas para a Folha] foram dondocas de São Paulo dizendo coisinhas lindas. Não podiam dizer tanta tolice. Todos são bonzinhos publicamente. E depois exploram a sociedade, seus serviçais, exploram todos os serviços públicos. Querem estar sempre nos palácios dos governos porque querem ter benesses do governo. Isso não vai ter aqui nesses oito meses [prazo que resta para Lembo deixar o governo]. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações.

Folha - O senhor diria que elas pensam que aquele rapaz de 15 a 24 anos, que vive perto da selvageria...

Lembo - ...pode ser o Bom Selvagem do Rosseau? Não pode.

Folha - O endurecimento na legislação pode resolver o problema?

Lembo - Transitoriamente pode resolver. Mas se nós não mudarmos a mentalidade brasileira, o cerne da minoria branca brasileira, não vamos a lugar algum.

Folha - O senhor diz que muita gente falou besteira sobre os episódios. Dos EUA, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou a possibilidade de o governo ter feito acordo com os criminosos para cessar a violência.

Lembo - Eu acho que o presidente Fernando Henrique poderia ter ficado silencioso. Ele deveria me conhecer e conhecer o governo de SP. Eu não posso admitir nem a hipótese de se pensar isso. Para opinar sobre um tema tão amargo, tão grave, ele teria que refletir, pensar. E se informar. Quanto ao presidente [FHC], pode ser que eventualmente ele tenha precedente sobre acordos. Eu não tenho.

Folha - Vimos o senhor dando muitas entrevistas na TV. Mas SP teve um outro governador [Alckmin], tem um candidato ao governo e ex-prefeito [Serra]. O senhor ficou sozinho?

Lembo - No poder, um homem é absolutamente solitário. Houve momentos em que praticamente fiquei sozinho. Mas devo agradecer a Polícia Militar e a Polícia Civil também, que estiveram firmes ao meu lado.

Folha - O ex-governador Alckmin telefonou para o senhor em solidariedade?

Lembo - Dois telefonemas.

Folha - O senhor achou pouco?

Lembo - Eu acho normal. Os pulsos [telefônicos] são tão caros...

Folha - E o candidato José Serra?

Lembo - Não telefonou. Eu recebi telefonema da governadora Rosinha [do Rio de Janeiro] e de Aécio Neves [governador de MG], que estava em Washington, ele foi muito elegante. Um ofício do governador Mendonça, de Pernambuco. Recebi muitos apoios, do Poder Judiciário, e a Assembléia Legislativa, deputados de todas as bancadas, nenhum partido faltou.

Folha - As autoridades paulistanas garantiram, nos últimos anos, que o PCC estava desmantelado, que era um dentinho aqui ou ali. Elas enganaram os paulistanos?

Lembo - Não saberia responder. Eu não engano. Eu acho que nós ganhamos uma situação mas é um grande risco. Temos que ficar muito atentos.

Folha - Essas autoridades garantiram que o PCC tinha acabado. Ou elas enganaram...

Lembo - Ou o dentinho era maior do que elas diziam.

Folha - Ou foram incompetentes. O senhor vê terceira alternativa?

Lembo - Pode ser que tenham sido exageradas no momento de transferir segurança. Quiseram ser tranquilizadoras.

Folha - Então elas iludiram as pessoas?

Lembo - É possível.

Folha - O senhor pode dizer que o PCC pode acabar até o fim de seu governo?

Lembo - Só se eu fosse um louco. E ainda não estou com sinal de demência. Acho que o crime organizado é perigosíssimo. Ele se recompõe porque ele tem possibilidades enormes na sociedade.

Folha - O ex-presidente Fernando Henrique não telefonou?

Lembo - Não, não. Ele estava em Nova York. O presidente Lula telefonou, foi muito elegante comigo. Conversei muito com o presidente, ele me deu muito apoio. E o Márcio [Thomaz Bastos] veio, conversamos firmemente, com lealdade. E ele chegou à conclusão que não era necessário nem Exército nem a guarda nacional. Tivemos uma conversa responsável, e o equilíbrio voltou. Mostrei que a Polícia Civil e a Polícia Militar tinham condições de fazer retornar a SP a ordem e a disciplina social.

Folha - O Datafolha mostrou que 73% acham que o senhor deveria ter aceitado ajuda federal. O governador Alckmin disse que não rejeitaria a ajuda.

Lembo - Ele decidiria, se fosse governador, como achava melhor. Eu decidi da forma que achei melhor. Quanto às outras pessoas, faltou clareza de informação da minha parte. E aí me penitencio. Não é que não aceitei ajuda do governo. Ao contrário. Desde sempre houve vínculo forte entre o sistema de informação da polícia federal e a polícia de SP. A superintendência da PF em SP foi extremamente leal, solícita e dinâmica.

Eu tinha uma Polícia Militar muito aparelhada. Eu não poderia tirar esse respeito e esse moral que a tropa tinha que ter naquele momento tão difícil aceitando tanques de guerra do Exército. E aí uma sociedade que gosta de paternalismo, como a brasileira, queria Exército, tropas americanas, tropas alemãs, tropas de todo o mundo aqui. Não é assim.

Temos que ser fortes, saber decidir em momentos difíceis e dar valor ao que é nosso. Foi o que fiz. Em 48 horas liquidou-se o problema. O Exército é para matar o adversário. Eu queria recolher os adversários possíveis. Nós estávamos num conflito social.

Posted by subversiva at 10:50 AM | 6 Comentário (s)

Quando a gente começa a achar Los Hermanos bonitinho é que tem alguma coisa muito errada (ou muito certa)

Conversa De Botas Batidas

Los Hermanos

Composição: Marcelo Camelo

- Veja você onde é que o barco foi desaguar
- A gente só queria o amor...
- Deus parece às vezes se esquecer
- Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar
- Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder...
- E se amar, se amar até o fim
- sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar

Abre a janela agora, deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
e agora esta de bem

Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar

Diz quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além. Vão dizer
que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
vai cair

Posted by subversiva at 12:37 PM | 5 Comentário (s)

Sou classe média

Para todo mundo cantarolar junto, pessoal. Acessem o link: http://www.youtube.com/watch?v=KfTovA3qGCs.

Classe Média – Max Gonzaga

Sou classe média

Papagaio de todo telejornal

Eu acredito na imparcialidade da revista semanal

Sou classe média

Compro roupa e gasolina no cartão

Odeio coletivos e vou de carro que comprei à prestação

Só pago impostos

Estou sempre no limite do meu cheque especial

Eu viajo pouco, no máximo um pacote CVC tri-anual

Mas eu “to nem aí”

Se o traficante é quem manda na favela

Eu não “to nem aqui”

Se morre gente ou tem enchente em Itaquera

Eu quero é que se exploda a periferia toda

Mas fico indignado com o Estado quando sou incomodado

Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão

O pára-brisa ensaboado

É camelô, biju com bala

E as peripécias do artista

Malabarista do farol

Mas se o assalto é em Moema

O assassinato é no Jardins

E a filha do executivo é estuprada até o fim

Aí a mídia manifesta a sua opinião regressa

De implantar pena de morte ou reduzir a idade penal

E eu que sou bem informado

Concordo e faço passeata

Enquanto aumenta a audiência

E a tiragem do jornal

Porque eu não “to nem aí”

Se o traficante é quem manda na favela

Eu não “to nem aí”

Se morre gente ou tem enchente em Itaquera

Eu quero é que se exploda a periferia toda  

Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta

Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida

Sou classe média

Posted by subversiva at 04:20 PM | 7 Comentário (s)

May 22nd, 2006

Diretamente das minhas habilidades no photoshop

Untitled

Posted by subversiva at 03:32 PM | 9 Comentário (s)

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