Nesse fim-de-semana/feriado muita coisa aconteceu: o Corinthians perdeu da Ponte Preta, teve pizzada com os amigos lá em casa, feijoada com os amigos na Gabi, o Garotinho entrou em greve de fome, o Daygo fez seu outing, o Tom Cruise desmentiu o boato sobre comer a placenta do próprio filho (como se come uma placenta? De colher ou de canudinho?), o Morales mostrou os culhões bolivianos que o Lula não tem por ser brasileiro e fui no último dos três casamentos de abril. Hora de postar sobre as três cerimônias do mês, como prometido.
Os três casamentos de abril Saldo
105 doses alcoólicas
12 kilos a mais
200 vezes a música “Se ela dança, eu danço”
Nenhum acompanhante
Nenhum buquê Sexta-feira, 21 de abril, feriado de Tiradentes
Já repararam que ninguém trabalha nos feriados, só o pessoal das Lojas Americanas? Não tinha um salão aberto para fazer a unha (que unha?), uma escovinha no cabelo e uma maquiagenzinha básica. E lá nas Lojas Americanas ninguém podia pentear minhas madeixas e parar de atender em ritmo frenético os milhares de paulistanos que resolveram passear no único lugar aberto da cidade, sob o risco de ser demitido. O jeito foi ir com as unhas borradas por mim mesma, com o corte do Adílson ajeitado pela mamãe e uma maquiagem dos anos 80. Ainda bem que o vestido bonito tinha sido emprestado pela Mari e o sapato eu comprei no natal para as 200 festas de formatura que tive no ano passado.
Como eu era madrinha do Rafão, grande amigo que fiz nos Gaviões e nas arquibancadas corinthianas, a ordem era chegar cedo para definir a entrada dos padrinhos no altar, montado no salão de festas da suntuosa Maison Saint German, em Osasco. O Pavão (calma, calma, o amigo dos Gaviões e não o ex-namorado) passou para me buscar e quase nem reconheci por dois motivos: ele não carregava um copo de cerveja na mão e ele não usava uma touca dos Gaviões. E lá fomos nós. Chegamos realmente cedo, antes até do noivo e de toda a sua família. Pra nossa sorte já eram servidos alguns canapés e pequenas doses alcoólicas. Não estávamos nem a 20 minutos no lugar e eu já segurava as lágrimas em uma tremenda depressão, conseqüência do Martini que causa esse tipo de efeito em mim quando consumido em quantidades assustadoras (me lembro de um reveillon, quando eu só tinha uns 14 anos e estraguei a noite de todo mundo depois de tomar um porre de Martini e chorar compulsivamente, dizendo que a minha vida era uma bosta).
Mas parece que não era só eu que havia abusado dos garçons (no melhor sentido). Uma mulher rolou a escada no melhor estilo vídeo-cassetada bem na nossa frente e logo a depressão passou. Eu e Pavão começamos a rir descontroladamente, ignorando a cara de dor da pobre moça que, apesar de tudo, caiu com uma tremenda classe. Rolou lentamente, levantou e levou as mãos às nádegas, sob um vestido longo e preto, mancando um pouco com seu salto 30. Foi impossível não rir. Pena que o marido e a filha dela estavam ao nosso lado. Aí o Pantchinho chegou com a Gi, sua esposa, e a Li, sua filhona de quatro anos. Ele seria padrinho junto comigo. Foi a vez que eu cheguei mais perto de ser madrinha de bateria, já que ele é mestre da mesma nos Gaviões.
Duas horas depois, eu estava meio zonza e os organizadores do cerimonial começaram a nos alinhar e a explicar como deveríamos fazer. Eu e Pantchinho nada entendíamos e trocávamos de lugar na fila para ficar atrás e ver se conseguíamos copiar os padrinhos da frente. Ficamos por último. O lugar estava lindíssimo. Deveríamos cruzar uma passarela colocada em cima da piscina estrategicamente já que se alguém caísse deveria ser paga ao lugar uma multa no valor de R$ 1.300,00. Sobre a passarela, um tapete vermelho. Luxuosíssimo, se não fosse escorregadio e se a mulher-que-rolou-a-escada não tivesse torcendo por vingança. Quase (e por muito pouco mesmo) o Rafa desembolsou R$ 2.600,00 pelo casal de padrinhos Lelê-Pantchinho.
Nunca tinha ido a uma cerimônia espírita e foi realmente emocionante. Um texto bonito sobre homens e mulheres foi lido e as lágrimas rolavam em todos os rostos dos presentes. Até chegar a bateria dos Gaviões para dar o nosso presente de casamento e todo mundo fazer cara de pavor. Eu sei, eu sei, assusta mesmo ver chegar uns 15 caras de 2x2, vestidos com touquinhas, bonés e conjunto completo de torcida organizada. Como “os últimos serão os primeiros”, eu e Pantchinho deveríamos sair na frente dos outros padrinhos no final da cerimônia, mas estávamos ocupados demais, deslumbrados lá na frente e dando tchauzinho pra Deus e o mundo. Tudo sendo devidamente filmado, até o pessoal falando de canto de boca em meio aos sorrisos pra gente andar logo porque atrapalhávamos o andamento do casamento.
Tiramos fotos, gravamos um depoimento: “Porque nos conhecemos no amor alvinegro pelo Coringão, certo, mano. Que seus filhos seja tudo Coringão, certo?! Felicidades, certo?!”, e fomos para o palco com o presente: um show da bateria dos Gaviões. Foi sensacional. Velhinhos e velhinhas cantando “Sou maloquÊÊÊÊÊRO” e caindo no samba. Até eu mostrei tudo o que uma jornalista do terceiro setor tem, ou seja, merda nenhuma. Depois do show, lotados uma mesa de Gavião e todo mundo estava preocupado em comprar as passagens de avião para o jogo contra o River, em Buenos Aires. E com toda a finesse do mundo, o Tatinho pediu um guaraná pro garçom:
- AE, IRMÃOZINHO. TEM A MORAL DE ME TRAZER UM GUARANÁ??? HEIN??? ÃHM??? TEM A MORAL OU NÃO, PORRA? TÔ MORRENDO DE SEDE AQUI, CACETE!!!! Depois do guaraná envenenado, os meninos entraram no caminhão e seguiram para a quadra. Eu, Pavão, Pantchinho, Lívia, Gi, Viola, Fábio e namorada e mais um rapazote que não me recordo o nome com sua digníssima esposa ficamos por lá, bebendo e contando histórias alucinantes da torcida, de jogos do Corinthians e de viagens.
O povo se matava na pista (Se ela dança, eu danço) enquanto eu e a Lívia, de quatro anos, cochilávamos na cadeira. Sou velhinha, poxa. Aí acordamos e ela resolveu gritar para uma senhorinha na mesa ao lado que ela parecia uma mariposa. A senhora, não a Lívia.
Então, eu disfarçava na mesa que não estava interessada na hora do buquê, mas não tirava o olho da movimentação.
- O que você olha tanto para a pista, Lelê?
- Nada...
Até que o Rafão chegou, bateu a mão no meio da mesa e disse:
- CORRE, Lelê!!! É A HORA DO BUQUÊ!!!!!
Eu saí correndo ensandecidamente, atropelando todo mundo que via na frente e nem olhei atrás, só imaginando os meus amigos em choque por ver a necessidade de desencalhar.
Me coloquei estrategicamente entre as tias velhas, ao lado de uma manca e de uma cega e pela primeira vez em toda a minha vida o buquê passou perto. Tão perto, mas tão perto que entrei em pânico e nem levantei sequer um dedinho para pegar. Caiu no colo de uma transeunte que passava pelo local.
- MERDA!!!! - ela exclamou - Quem pega o buquê nunca casa!
Eu dei um suspiro meio aliviado, meio decepcionado e voltei pra mesa. Lá pela uma da manhã eu dei a entender para a minha carona que já era tarde e que acordaria cedo no dia seguinte porque teria outro casamento, mas a essa altura do campeonato o Pavão já tinha voltado a ser Pavão e segurava três copos de cerveja. Não me restou outra coisa senão beber, pois a minha companheira de derrota dormia profundamente no colo da mãe e a minha mãe dormia profundamente na Vila Pompéia. Às três da madrugada, todas as pessoas de bem estavam em suas respectivas casas. Sobravam no recinto os advogados, os jornalistas e os membros de torcida organizada, sendo eu a jornalista-membro-de-organizada. Foi quando chegou na nossa mesa uma menina absolutamente embriagada, gritando que queria ser delegada. Depois de assustar todo mundo, ela se uniu aos outros advogados que ameaçavam se jogar na piscina só para sacanear o noivo. Normal. Eles tinham que sacanear alguém.
- Gente, e ISSO quer ser delegada – comentei com um rapaz desconhecido que sentou ao meu lado.
- Eu sei. Eu namoro a ISSO.
Silêncio constrangedor. - To bêbada.
E segui correndo para a pista dançar. Às quatro, o Pavão achou melhor ir embora. Talvez fossem as luzes apagadas, ou as cadeiras em cima das mesas, ou mesmo os garçons que já não serviam nada e estavam sentados na escada com roupas normais, esperando os últimos convidados irem embora. Talvez não. Mas lá fomos nós, todos espremidos em um Celta: eu, Pavão, Fábio, namorada do Fábio, o rapazote-sem-nome e o Viola.
Assim que entrou nos seus dois cm2, o Viola dormiu e começou a sonhar com algo bastante suculento, pois babava muito em seu próprio braço. Na frente da Mancha Verde e da Acadêmicos de Savóia, torcidas organizadas da porcada, paramos o carro. - Chegamos, Viola.
Ele acordou, desceu, olhou e o resto a gente nem sabe porque já era tarde da noite e hora de voltar para casa. Mas dizem que ele passa bem. (continua)